domingo, 8 de junho de 2014

Arrasta-pé: uma quadrilha presa no tempo

Imagem: Facebook Arrasta-pé




Sei que se torna difícil qualquer esforço para acreditar no que vou falar a seguir, mas assevero que se trata da verdade: é muito difícil criticar. Para reprovar com franco objetivo de construir faz-se necessária uma argumentação precisa, inteligente e que possa realmente ter significação para aqueles que leem. Sobretudo, agora, pois vivemos numa época em que qualquer crítica pode gerar reações absurdas, inclusive fazendo o ofendido recorrer a tribunais como se o fato da indenização funcionasse como um antídoto contra a opinião do outro. Creio que seja difícil criticar, pois é o atirar da primeira pedra. E essa tarefa no meio junino, caros leitores assíduos desse blog, é bem mais complexa que aparenta ser, afinal dez meses de sofrimento que cada grupo junino dispõe para realizar um trabalho, e este ainda possuir falhas é lamentável. Então, receber a crítica justa com humildade é a religião do herói.



As quadrilhas juninas cresceram mirando-se nos belos exemplos culturais que Pernambuco e o Ceará ofereciam. Com características que fazem do Maranhão mais parecido com os estados da região Norte, sendo conhecido popularmente apenas pela festa do Boi-Bumbá, nosso Estado ainda não possuía representatividade nos grandes festivais de quadrilhas do Nordeste, até Açailândia lançar um estilo que seria seriamente absorvido pelos demais grupos juninos. As quadrilhas cresceram, sofisticando-se, buscando inovação, evitando apresentar mais do mesmo, levantando a bandeira da cultura e assumindo o posto de protagonistas da cultura em nossa cidade. Em 2014, isso ficou mais que evidente: todas as quadrilhas presentearam suas plateias com espetáculos de emoção e arte pura.



Infelizmente, aqui retrato uma das quadrilhas que não acompanhou o crescimento exponencial das demais: Arrasta-pé de Açailândia. Sua apresentação estaria excepcional se estivéssemos no cenário de 2010. Mas não, não vivemos mais esse tímido início de uma década. O tempo avançou quatro anos e a quadrilha continua a insistir em algo que já foi devidamente explorado pelas demais. É a mais antiga entre as quadrilhas, porém é a que apresenta o menor grau de crescimento, como se suas irmãs já estivessem entrando na fase adulta e ela a continuar presa na chupeta e brinquedos.



Não, caros leitores, a apresentação não foi totalmente ruim como já interpretaram alguns até aqui. Mas presa no tempo. Assistir à apresentação da Arrasta-pé concedeu ao público a honra de voltar na Açailândia Junina de 2009-2010. Época em que os jovens quadrilheiros de nossa cidade acreditavam que poderiam fazer um mês de Junho diferente, agindo quase que instintivamente. As danças, as coreografias e os adereços lembraram em muito a já empoeirada “Festa do pau da bandeira” de 2010 (sim, a imagem de três santos também estava lá). Ao fazer essa comparação com um tema da Flor da Mandacaru desse ano, não pensem que desejo ofender a queridinha de Açailândia. Afinal, estamos falando de uma época em que ela ainda estava imatura, apresentando um espetáculo fortemente rascunhado na excelente Dona Matuta. Consequentemente, ao comparar 2014 com 2010, o salto da Flor é espetacularmente grandioso.



Mas e se compararmos a Arrasta-pé consigo própria? Somente assim conseguiremos obter algum tipo de comparação vantajosa para o grupo junino. A quadrilha resistiu à inovação, preferindo continuar, por diversos anos, ainda mais próxima ao jeito convencional de fazer São João. Em um desses anos, ela simplesmente sumiu, deixando seus fãs aflitos. Mas finalmente seus membros despertaram desse sono de contos de fadas e optaram por um fazer junino que hoje é característico da cidade. Pena que estivessem eles perdidos no tempo; o ano é 2014, época de inovações e qualidade global.


Fato que comprova o que disse está na escolha do tema do ano. Encantos Juninos é uma expressão forte e sagaz. Mas não para nomear a arte que eles apresentariam em vinte e cinco minutos. O tema é impreciso, redundante, podendo se referir a qualquer fato que se apresente no Arraial, afinal estamos no mês de Junho. E não vimos esse encanto prometido acontecer nas vestes, no prólogo ou nas coreografias. Arrasta-pé parece uma senhora mais velha perdida no meio de tantas inovações. Louvável de sua parte é tentar a reinvenção, mesmo que não tenha sido completamente feliz em seu projeto de ressurreição.



Não queremos que ela morra! De forma alguma! Afinal, seu lema proferido à custa dos pulmões dos seus membros ao final de sua apresentação ainda eriçam fortemente a pele de seu público. Para o ano que vem, algo complexo para resgatá-la, mas que pode ser simples desde que realizado com criatividade: avançar quatro anos em apenas um. E Arrasta-pé é competente para fazer isso, sabemos. Sua prisão no ano de 2010 não pode ser perpétua, pois sua plateia que ainda lhe é cativa precisa sentir novamente aquela energia que a marcou antes desse ano. Açailândia é a cidade das quadrilhas juninas e como tal, não pode perder a sua pioneira. Para aqueles que sonham em montar seu grupo junino próprio, alegrem-se: a Arrasta-pé comprova que nem sempre criatividade e experiência são grandezas diretamente proporcionais.





Com os pêsames de

K. Fera





Brevemente postando sobre alguns os componentes que mais se destacaram nessa Açailândia Junina.

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