sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A despedida de K. Fera


Honrados leitores,

Desde algum tempo, prometi que revelaria a minha identidade e não sei por quais motivos descobrir o mistério por trás desse blogueiro tem sido a obsessão de alguns. Inclusive, numa das postagens desafiei os grupos juninos a mostrarem um tanto mais de criatividade, incentivando esse blogueiro a apresentar seu real nome. A falta de atenção a essa requisição, em partes, foi ideal, pois continuei no anonimato, fundamental para garantir a livre expressão das minhas ideias.

Para quem não sabe, a origem do nome do K. Fera, está associada a dois eventos distintos. À famosa blogueira Keila K. que atraía olhares com seu blog político e “Fera” da necessidade de ir com voracidade ao assunto que me propus falar. Enquanto o primeiro nome, “Carlos”, é apenas produto de uma escolha aleatória.

Desde então, oito semanas passaram, e muitos convites para fazer parte de algum grupo junino vieram,  causando sérias dúvidas à pessoa física: será chegada a hora de K. Fera mudar de lado? Não mais escrever sobre o movimento junino, mas contribuir para sua realização?

Ou seja, caros leitores, termina aqui esse blog. Nada mais natural na vida: blogs nascem, crescem e morrem. Mas na arte junina, como na natureza, nada se perde, tudo se transforma, e quem sabe vocês terão a honra de saber quem é a pessoa física do K. Fera somente em 2015?

Em tempo: Para a sobrevivência do respeito do K. Fera, preferi preservá-lo no anonimato. Apenas uma dica ficará fincada no corações quadrilheiros, suscitando ainda maiores suspeitas: sim, sou um rapaz. E garanto que vocês verão esse rapaz em 2015. Seja fazendo arte junina, seja apenas comentando.



Um grande abraço a todos os quadrilheiros, tudo de bom!

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

O melhores de Junho






Imagem: Montagem com fotos dos brincantes

Açailândia ficou ainda maior este ano. E a culpa não foi da Geografia. O mês de Junho e Julho revelaram uma cidade muito graciosa, enfeitada para um São João expresso de muitas formas. Juntas, Flor de Mandacaru, Caipiras da Serra, Matutos do Rei, Arrasta-pé e suas primas Zé Comeu e Arraiá do Koroné mostraram que futuramente, não estaremos devendo em nada para as devoradoras pernambucanas. Hoje, destaco alguns dos protagonistas que se apresentaram notabilidade nessa Açailândia Junina. O brilho de todos os envolvidos foi muito intenso, mas alguns pontos ganharam os holofotes do espetáculo junino. K. Fera descreve o que houve de melhor no ano em que a junina atravessou os limites do espetáculo.

Melhor Noivo
Não deve ser novidade para ninguém sobre quem merecerá este prêmio na humilde opinião deste blogueiro. O medalhista é Lauender França, cuja apresentação estonteante já mereceu uma postagem aqui no blog. Ender, dentre os noivos das juninas, talvez seja aquele que há mais tempo está no papel e desde sua primeira aparição, com a tímida Flor de Mandacaru de 2010, vem fazendo um excelente trabalho por meio de uma estratégia muito simples: deixar seu coração se levar no Arraial. Em cada movimento e sorriso, Lauender permitia a viva energia do mês de Junho percorrer o seu corpo e expressar a arte da sua quadrilha de forma memorável. Será difícil esquecer seu personagem, cambaleante, aproximando-se do seu par, logo após a Virgem Maria ter intercedido pelo noivo, numa das cenas mais lindas do arraial da teimosia da fé. É o cartão de visitas da Flor de Mandacaru que recebe este prêmio. Esperamos que em 2015 ele receba o mesmo personagem. 

Melhor Noiva
Gleivane Campos veste esse título com a mesma honradez que usou o branco. Simpática, uma dançarina estilosa e capaz de flutuar entre a festa e o drama, a noiva da ainda tímida Caipiras da Serra deve ser mencionada como um dos grandes atrativos da quadrilha que veio do Plano da Serra. Tive, infelizmente, apenas duas chances de ver a apresentação da Caipiras da Serra, mas minha memória resguardou bem a imagem da mulher de branco que esbanjava uma alegria transparente de estar conduzindo um grupo junino que se mostra a cada ano mais capaz de surpreender.

Melhor Canção
Foram inúmeras canções que embalaram os movimentos dos nossos artistas. Este ano tivemos investimento inédito no repertório que resgatou inclusive músicas que estavam perdidas no famoso “arco da velha”. Por isso, não destaco aqui um grupo que tenha feito uma escolha melhor. É incoerente comparar uma trilha, a exemplo, da Matutos do Rei que ousou pelo ineditismo com a da Arrasta-pé ou Flor de Mandacaru que foram a fundo na busca de canções muito tradicionais, porém com forte significação ainda na modernidade ou mesmo a trilha da Arraiá do Koroné que trouxe músicas centradas em emocionar o público. Portanto, apenas uma canção figurará aqui. Deus do Barro foi, com toda certeza uma das músicas mais interessantes que a Flor de Mandacaru resgatou e apresentou no Arraial. Pode parecer estranho até para os membros da referida quadrilha, este humilde blogueiro não ter escolhido “”, que trata-se de uma canção belíssima que norteou todo o espetáculo, da abertura ao encerramento. Mas acredito que o contexto em que se estabeleceu a canção Deus do Barro, com referência ao grande Mestre Vitalino, uma figura tão importante no Nordeste, mas pouco reconhecida no Maranhão foi a chave para que sua plateia pudesse conhecer esse extraordinário personagem. No momento em que a canção é executada, a Flor atinge um ápice artístico inigualável, tornando sua apresentação muito elegante. Por isso, é a eleita.

Melhor Figurino
Os figurinos este ano mereceram largos elogios. Houve um esforço conjunto entre todos os envolvidos na arte junina. Dos croquis às agulhas e tecidos, tivemos vestimentas grandiosas que incendiaram os arraias da Açailândia Junina com todas os tons. E haja exploração nessa paleta de cores! Do fúnebre preto ao estonteante amarelo, os grupos abusaram da criatividade. Nessa matéria, destaque especial a Matutos do Rei, que neste ano apresentou um figurino degradê reproduzindo com inteligência e beleza a ambiguidade das águas do mar. Como se não fosse suficiente, as coreografias exploravam as cores num legítimo movimento das ondas. O enredo, muito linear, leve, com pinceladas de humor também aproveitou-se do efeito que tais vestimentas causaram. O figurino foi tão elogiado pelas cores azuis – inclusive lá longe, em Pernambuco – que, como afirmei em postagem específica, houve uma inversão interessante: os verdadeiros destaques da Matutos do Rei trajaram o azul. Essa inesquecível cor ficará eternamente resguardada em nossa volúvel memória.

Destaque Figurino
Embora a Matutos do Rei tenha conseguido uma estabilidade e regularidade na escolha dos tons que ilustraram sua apoteótica apresentação, saiu das mãos dos estilistas da Flor o mais belo vestuário da Açailândia Junina. Bruna Adriele, uma das figuras destaques da Flor de Mandacaru, trajou um vestido belíssimo, bem situado na fronteira entre o luto e festa. O belo vestido, bem trabalhado no duelo a claridade do talento de Vitalino e o marrom da matéria-prima do trabalho desse artista, somado a adereços bem pensados, teve o prazer de vestir um dos mais belos sorrisos da queridinha de Açailândia, tornando-a estelar nos registros documentais realizados pelo fotógrafo Marcelo Cruz.


Melhor Marcador
Eis o item que causou especial confusão na cabeça deste blogueiro. Nessa matéria, tivemos um ano muito bom, com excelentes artistas dispostos a entregar seu coração para a plateia. Minha vontade é dividir igualmente esse prêmio entre todas as juninas a que tive o prazer de assistir, pois os seus carros chefes levaram com liderança e emoção, ritmo e fé a condução de seus grupos. Porém devo destacar um. E acredito que Rhaoni Silva, entre as que eu vi, teve um papel ainda mais fundamental ao sucesso da preciosa Arraiá do Koroné. Como sabemos, a Arraiá enfrentou uma apresentação difícil no Arraial da Mira, mas que não foi trágico devido à condução de seu líder que manteve o restante de seu grupo direcionado mesmo diante da adversidade. Por isso, meus francos elogios, Arraiá do Koroné é a demonstração mais viva de garra em 2014.

Casal destaque
Embora os noivos sejam certamente os brincantes mais bem escolhidos para protagizar o prólogo de suas juninas, outros casais merecem muito destaque. E minha escolha pode parecer um pouco estranha, mas devo creditar a Joselita Marques e Tharles Ponciano, da Matutos do Rei, uma citação. São considerados noivos de suas quadrilhas,e deveriam concorrer em tal categoria, mas como já me pronunciei aqui, acredito que a arte da Matutos do Rei merece maiores elogios por não ter subestimado a inteligência do público. Nessa quadrilha, temos quatro casais de “noivos”, porém o verdadeiro protagonista do prólogo é o pescador e seus encontros amorosos. Portanto, segue oportuna minha escolha. Joselita e Tharles possuem um entrosamento único. Ela, munida de seu sorriso, suas graças, suas caras e bocas e ele, do outro lado, conduzindo a dama com profissionalismo e charme. Será uma parceria rotulada como inesquecível, e esperamos esse show se repita no ano que segue.

Outro Casal destaque
Já tenho escolhido o meu casal, mas não posso de deixar de dar meu destaque a outro par também importante. Bruna Adriele novamente figura aqui, desta vez com seu cavalheiro Max Sandro. Confesso: eu achei bem desenvolvidos os seus figurinos e a condução que o casal teve durante os trinta minutos. Juntos e somente juntos transbordaram emoção, parceria e acima de tudo, simpatia para o público presente. Creio que eles carregavam a “coroa de rei” citada numa das músicas do excelente repertório da Flor de Mandacaru.

Melhor Arte de banner
Apesar da sofisticação e da grandiosidade inundarem os arraias este ano, o banner do grupo junino Zé Comeu contrastou com esse vendaval de criatividade, colocando no palco algo simples, poético e dentro do tom que eles propunham fazer no arraial. Sua arte traz nas entrelinhas todo o universo que a Zé Comeu aborda nos seus trinta minutos de apresentação, pois sabemos que a quadrilha retratou em sua apresentação uma história muito dinâmica, e que portanto, exige caminhar entre diversos cenários. Enfim, artisticamente lindo e materialmente impressionante.

Destaque banner
Matutos do Rei também se sobressaiu nessa matéria. Apresentou um banner criativo, talvez inspirado em alguns dos desenhos que ilustram as obras de Jorge Amado, o que diante mão, é um excelente acerto. O banner apresenta todos os elementos do universo incrivelmente mágico que Matutos levou ao arraial, num desenho com traços simples, cores frias e tons que revelam modéstia artística. Pela arte gráfica da Matutos do Rei já é possível vislumbrar o universo mágico e leve que esses artistas propunham fazer: lendas e mistérios, colhidos no nosso riquíssimo folclore brasileiro. Protagonizados pelo grande artista Xico Cruz, que mostrou ampla engenhosidade artística. Um marco!
 
Maior mico
Creio que nossas juninas não decepcionaram. Nosso arraial que foi da ilusão, dos costumes, dos encantos e dos amores impossíveis mostraram que é imaginável se aproximar da arte em tempos em que somente a vulgaridade merece valor. Por isso, acredito que embora tenham ocorrido falhas, o saldo é comparável a uma goleada. As juninas marcaram 7 a 1 contra o descrédito e a falta de recursos.Cada gol desses jovens custou a vergonha do poder público local. É, caros leitores, foi um dos anos em que nossas juninas mais passaram por sérios apertos financeiros. E ilustro isso com a Flor de Mandacaru, ou mesmo a balsense Arraiá do Koroné ou a imperatrizense Zé Comeu que correram com garra atrás de recursos (que estão mal guardados nos cofres públicos) para levar seus encantos para fora de seus domínios. Assim, aqueles que se consideram donos das chaves que abrem os cofres públicos merecem esse troféu mico. Um ano em que não vimos apoio maciço das secretarias de cultura e outros órgãos. Uma antítese triste de se ver: quem deveria estar regando nossos grupos juninos, concorre para que eles sejam podados. Mas acredito na força das nossas juninas. E que venha 2015 subverter esse quadro!