Imagem: Facebook de Kelvys Martins
(para apreciar
ao som de Hora do Adeus de Luiz Gonzaga)
Inconformado estou e inconformado permanecerei.
Mas não é tão importante temer a tempestade como é sair dela. Este final de
semana, enquanto assistíamos tensos o jogo do Brasil e comemorávamos depois com
o trio de ouro do brasileiro carne-cerveja-música, nossa queridinha de
Açailândia passava por um dos maiores sufocos de sua história. Se houver um
lançamento de um livro com as memórias desse grupo junino nos próximos anos,
creio que esse episódio não poderá faltar em suas longas páginas, recheadas de doces
vitórias e alguns amargos sofrimentos. A Flor de Mandacaru mais uma vez provou
sua determinação e mostrou um espetáculo diferente, preso a uma estrada sombria
e um ônibus com problemas mecânicos: o espetáculo da perseverança.
Meus caros leitores mais desatentos,
enquanto a prefeitura da cidade de ferro deixa a cidade mergulhar no mesmo
marasmo de antes, um “boom” junino se alastrava na cidades de Grajaú e Pedreiras.
Após a desistência pública da Matutos do rei, que na opinião deste humilde
blogueiro mostrou discernimento ao não se jogar atrás da conquista desses títulos,
já que não precisa mais provar a ninguém o quanto é espetacular, nossa Flor lançou-se
com fortes expectativas de consagrar-se campeão em ambos os torneios. Quem
andava nas ruas da cidade na última semana pôde constatar o primeiro espetáculo
de persistência desse grupo junino: alguns dos brincantes, acampados nas ruas
pediam a doação de valores dos motoristas e pedestres em nome da cultura de
Açailândia. Isso mesmo, caro leitor, a pouca distância da Secretaria de Cultura
do nosso município, a Flor tocava o espírito junino do açailandense para firmar
a sua causa. E ao que parece, que deu bastante certo: levantaram uma quantia
significativa, embora insuficiente para pescar esse sonho.
Com a certeza de suas qualidades, a Flor
lançou-se à deriva. Conseguiram chegar a Grajaú, onde uma série de selfies bonitas em igreja e outros
monumentos, invadiram nossas telas no facebook. Lá enfrentaram uma das
quadrilhas que também considero queridinha, a Arraiá do Koroné. Mostraram um espetáculo
novamente afirmador. Firmaram sua marca no Arraial de Grajaú, onde já haviam
registrado presença em outras épocas. Novamente, apesar das adversidades,
honraram os brincantes que sujeitos ao sol pediam dinheiro no início da semana,
e desenvolveram um espetáculo genuinamente açailandense. Um orgulho para este
blogueiro e para os amantes da cultura junina! Faturaram o segundo lugar e uma
viagem digna de aventura. Arraiá do Koroné, uma quadrilha em crescente
desenvolvimento, conseguiu o topo do pódio. Não esperem que eu comente essa
colocação. Eu sei que a Flor conhece seus atributos. Não é novidade que se
trata de um dos grupos juninos que mais emocionam o seu público.
A teimosia de sua fé motivou uma peleja
grande no domingo. Devido problemas mecânicos, a Flor teve de parar sua trajetória
para o sucesso. Não foi possível chegar a Pedreiras. A legião de heróis clamou
em tristeza: estavam dispostos a ganhar esse título e novamente escrever seus
nomes nas areias de Fortaleza. O que se viu foi triste. Um grupo de coragem
paralisado, sem ter alternativas para se livrar da condição em que se encontravam.
No meio da estrada, em acampamentos, os brincantes da Flor de Mandacaru presos
a seus objetos de fé, choravam essa aparente derrota. Abraçados, sozinhos,
isolados e abandonados. Enquanto Pedreiras reclamava sua majestosa presença no Arraial
preparado para recebê-los. Quando anunciada a sua desistência, devido os
problemas que tiveram, os grupos juninos que já estavam em Pedreiras festejaram
o fato de sua maior e mais bem preparada concorrente estar fora da disputa. Enquanto
o espetáculo da Zé Comeu ia desenhando o favoritismo em Pedreiras, sobrava à
Flor de Mandacaru ambicionar apenas o retorno para casa.
Bom lembrar que o tema desse ano é “A
peleja dos costumes na teimosia da fé”. Eles honraram o que anunciam belamente no
Arraial de modo anônimo, isolados em uma estrada cercados de índios. Sua oração
sincera pôde ser ouvida e seu pranto silencioso fincou uma vitória. Não, não,
Flor de Mandacaru não saiu perdedora em nenhum dos arraiás citados. Mostraram que o
espetáculo junino não envolve somente Arraial e público. Na comunhão entre seus
membros, perceberam que apenas uma de suas muitas oportunidades foi perdida. E
que sua longa trajetória de coragem mostrou que eles sempre mereceram e
merecerão essa coroa de rei, pois honrá-la se trata de uma obrigação.
Com as homenagens e o orgulho de,
K. Fera

