quinta-feira, 26 de junho de 2014

Xico Cruz e seu espetáculo à parte na Matutos do Rei

 Imagem: Recorte de fotografia de Marcelo Cruz

Para quem sentiu saudades minhas, minha longa ausência tem breve explicação. Meu pobre coração esgotou-se na angústia e na felicidade de ver mais uma vez o Maranhão sendo bem representado num dos maiores concursos de quadrilhas do Brasil em Goiana/Pernambuco. E quem estava lá era a brilhante Matutos do Rei que pintava o nosso Estado – sem trajetória junina louvável no concurso – apresentando um espetáculo digno e inovador. Sem medo de devorar as grandes devoradoras, Matutos partiu de Açailândia com humildade e atirou-se em Pernambuco com garra para conquistar mais um troféu para enfeitar sua estante nutrida de outros títulos importantes. Chegou perto, mas ficou longe, bem verdade. E é o etéreo Xico Cruz, o protagonista do prólogo desse grupo junino, símbolo dessa geração de quadrilheiros.



Quando o espetáculo junino ainda engatinhava no solo açailandense, nossos artistas mais acertavam no instinto e na imitação que necessariamente na criatividade. Havia, é claro, uma vontade de fazer com as próprias mãos, porém era necessário tomar cuidado, afinal a Açailândia junina mal estava começando. Tal qual apareceram grandes artistas que mexeram na estrutura da Caipiras da Serra, Flor de Mandacaru, Arrasta-pé e Cangaceiros de Açailândia, Xico Cruz injetou no DNA da Matutos do Rei doses cavalares da sua criatividade artística. Até então, Cruz já era artista respeitado, e conseguiu elevar o espetáculo da Matutos ao máximo ao cruzar o universo de uma boneca de pano com o de um espantalho numa apresentação criativa de anos anteriores. Não lembraremos esse ano por seu figurino um tanto bisonho, mas por sua história bem narrada e impactante.



Xico Cruz promove no Arraial o verdadeiro encontro entre teatro e dança. Ora, quem disse que esses elementos precisam ficar exatamente bem separados? Não. Quando falamos de arte, e sobretudo, apoteose artística, todas as linguagens criativas tem de conversar entre si, e é isso que Xico representa na Matutos. Olha que audácia colocar um narrador, que é personagem, marca os passos, ao mesmo tempo em que dança e tem importância superior, inclusive, ao tradicionalismo do casal de noivos? Saliente seria o melhor adjetivo para descrevê-lo. Não tomem como ofensa, leitores mais desinformados, em se tratando de arte, ser saliente é qualidade devastadora.



Como pescador de ilusão, Xico deixa sua marca e seu sorriso “gaiato”. Ele convida a plateia a desfrutar esse sonho consigo, mostrando que para a criatividade o limite é nulo. Em quase meia hora de espetáculo, o vemos é uma grande ousadia, afinal temos uma história em que ele carrega o posto de autor, narrador e personagem principal. É quase impossível não se ver envolvido numa atmosfera tão bem entrelaçada quanto a que Matutos do Rei promove no Arraial. Algo meticulosamente pensado e eficientemente desenvolvido. Até aí, podem crer: um espetáculo único e precioso.



Em terras onde jogadores de futebol e cantoras de funk saradas fazem sucesso, é um alívio eleger como símbolo cultural o nosso nobre Xico Cruz. Hoje, ele é um dos personagens principais dessa Açailândia Junina que sobrevive com pouco dinheiro, mas fecundando espetáculos com fé e coragem. Com sinceras desculpas às demais quadrilhas juninas, não há como não amar o Xico! Essas quatro letrinhas poderia resumir todo o longo trabalho criativo que Açailândia vive alegremente hoje. E a vontade de se igualar a ele, faz de todo produtor artístico das juninas da cidade de ferro correr e pesquisar no objetivo de mostrar um trabalho superior. Isso é ruim? Não, caros leitores, isso é excelente para nós que ficamos ali, protagonizando somente um humilde assento na plateia.



Quanto ao espetáculo que levaram no último domingo a Pernambuco, 22, Xico honrou mais uma vez a cidade do qual é parte pulsante, mostrando uma apresentação criativa, inteligente e sobretudo, inovadora. As toneladas de fermento que levaram ao Arraial não foram o suficiente para inflar o bolo que os jurados exigiam. Mas devemos lembrar aquilo que o resultado final denotou: o Maranhão, que como foi explicado, não tem tradição em espetáculos do tipo, alcançou mais um importante degrau nessa escada cruel. Brevemente, quando o fazer junino encontrar suas raízes na tradição cultural desta cidade, teremos notícias de que estaremos no topo do pódio dessa competição. Até lá, desejo ardentemente  que o grande Xico Cruz continue a queimar seus neurônios na produção de prólogos cada vez mais excitantes e acima de tudo, que continue brindando um público carente de cultura com sua invencível versatilidade.   



Com as felicitações de

K. Fera
 

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