Imagem: Recorte de fotografia de Marcelo Cruz
Para quem sentiu saudades minhas, minha
longa ausência tem breve explicação. Meu pobre coração esgotou-se na angústia e
na felicidade de ver mais uma vez o Maranhão sendo bem representado num dos
maiores concursos de quadrilhas do Brasil em Goiana/Pernambuco. E quem estava
lá era a brilhante Matutos do Rei que pintava o nosso Estado – sem trajetória
junina louvável no concurso – apresentando um espetáculo digno e inovador. Sem
medo de devorar as grandes devoradoras, Matutos partiu de Açailândia com
humildade e atirou-se em Pernambuco com garra para conquistar mais um troféu
para enfeitar sua estante nutrida de outros títulos importantes. Chegou perto,
mas ficou longe, bem verdade. E é o etéreo Xico Cruz, o protagonista do prólogo
desse grupo junino, símbolo dessa geração de quadrilheiros.
Quando o espetáculo junino ainda
engatinhava no solo açailandense, nossos artistas mais acertavam no instinto e
na imitação que necessariamente na criatividade. Havia, é claro, uma vontade de
fazer com as próprias mãos, porém era necessário tomar cuidado, afinal a
Açailândia junina mal estava começando. Tal qual apareceram grandes artistas
que mexeram na estrutura da Caipiras da Serra, Flor de Mandacaru, Arrasta-pé e
Cangaceiros de Açailândia, Xico Cruz injetou no DNA da Matutos do Rei doses
cavalares da sua criatividade artística. Até então, Cruz já era artista respeitado,
e conseguiu elevar o espetáculo da Matutos ao máximo ao cruzar o universo de
uma boneca de pano com o de um espantalho numa apresentação criativa de anos
anteriores. Não lembraremos esse ano por seu figurino um tanto bisonho, mas por
sua história bem narrada e impactante.
Xico Cruz promove no Arraial o
verdadeiro encontro entre teatro e dança. Ora, quem disse que esses elementos
precisam ficar exatamente bem separados? Não. Quando falamos de arte, e
sobretudo, apoteose artística, todas as linguagens criativas tem de conversar
entre si, e é isso que Xico representa na Matutos. Olha que audácia colocar um
narrador, que é personagem, marca os passos, ao mesmo tempo em que dança e tem
importância superior, inclusive, ao tradicionalismo do casal de noivos?
Saliente seria o melhor adjetivo para descrevê-lo. Não tomem como ofensa,
leitores mais desinformados, em se tratando de arte, ser saliente é qualidade
devastadora.
Como pescador de ilusão, Xico deixa sua
marca e seu sorriso “gaiato”. Ele convida a plateia a desfrutar esse sonho
consigo, mostrando que para a criatividade o limite é nulo. Em quase meia hora
de espetáculo, o vemos é uma grande ousadia, afinal temos uma história em que
ele carrega o posto de autor, narrador e personagem principal. É quase impossível
não se ver envolvido numa atmosfera tão bem entrelaçada quanto a que Matutos do
Rei promove no Arraial. Algo meticulosamente pensado e eficientemente
desenvolvido. Até aí, podem crer: um espetáculo único e precioso.
Em terras onde jogadores de futebol e
cantoras de funk saradas fazem sucesso, é um alívio eleger como símbolo
cultural o nosso nobre Xico Cruz. Hoje, ele é um dos personagens principais
dessa Açailândia Junina que sobrevive com pouco dinheiro, mas fecundando espetáculos
com fé e coragem. Com sinceras desculpas às demais quadrilhas juninas, não há
como não amar o Xico! Essas quatro letrinhas poderia resumir todo o longo
trabalho criativo que Açailândia vive alegremente hoje. E a vontade de se
igualar a ele, faz de todo produtor artístico das juninas da cidade de ferro correr
e pesquisar no objetivo de mostrar um trabalho superior. Isso é ruim? Não,
caros leitores, isso é excelente para nós que ficamos ali, protagonizando
somente um humilde assento na plateia.
Quanto ao espetáculo que levaram no
último domingo a Pernambuco, 22, Xico honrou mais uma vez a cidade do qual é
parte pulsante, mostrando uma apresentação criativa, inteligente e sobretudo,
inovadora. As toneladas de fermento que levaram ao Arraial não foram o
suficiente para inflar o bolo que os jurados exigiam. Mas devemos lembrar
aquilo que o resultado final denotou: o Maranhão, que como foi explicado, não
tem tradição em espetáculos do tipo, alcançou mais um importante degrau nessa escada cruel. Brevemente,
quando o fazer junino encontrar suas raízes na tradição cultural desta cidade,
teremos notícias de que estaremos no topo do pódio dessa competição. Até lá,
desejo ardentemente que o grande Xico
Cruz continue a queimar seus neurônios na produção de prólogos cada vez mais excitantes
e acima de tudo, que continue brindando um público carente de cultura com sua invencível
versatilidade.
Com
as felicitações de
K.
Fera
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