sexta-feira, 17 de julho de 2015

Sete fatores que tornaram a plebeia em majestade

 Imagem: Montagem de Danrley Fagundes

Após um período muitíssimo conturbado capaz de defenestrar a pessoa física deste bogueiro, aqui estou eu. E pela primeira vez, a motivação para meus escritos estão muito mais além do Arraial. Esta semana, enquanto cumpria minha labuta diária, integrantes da Queridinha de Açailândia abordavam diversas pessoas em busca de recursos para realizar uma viagem tranquila para Parnaíba. Nada tão excepcional se não fosse por uma antítese interessante: enquanto a nossa quadrilha do quebra-coco pedia com clemência valores na Açailândia Junina, refletia que curiosamente a plebeia tem em mãos o tema mais rico do ano.

Enriquecer pequenos tesouros para torná-los grandes foi a tarefa que conduziu a Babaçueira este ano. Um fruto tão pequeno, tão mínimo tornou-se amplamente comentado dentro e fora dos arraiás, servindo inclusive como referências para aulas e projetos de Geografia e História de uma escola. Em meus textos, sempre acreditei que um tema é uma bandeira que se finca num Arraial. Porém, graças à Flor, terei que repensar este conceito, acrescentando a palavra fidelidade. Afinal, “Meu sobrenome é babaçu” ultrapassou as barreiras dos tablados, invadindo conversas na mesa de bares, escolas e é claro, as redes sociais. Diante a eficiência do tema da Queridinha, K. Fera aqui enumera os sete fatores que fizeram a Flor ter um ano ímpar.

#Realidade sofrida versus realidade cantada
A escolha de um tema exige uma atitude bastante difícil: traduzi-lo para o universo junino. E como se sabe, essa roupagem é alegre, fantasiosa e colorida. Flor de Mandacaru desejava falar sobre as quebradeiras de coco. E para tanto, tinha de transitar entre o sofrimento dessas mulheres e a alegria que lhes é peculiar. A receita foi sabiamente apresentar no início do prólogo um quarteto senhoras que pareciam ter saltado diretamente de um documentário; além do padre Josino, figura real e importante que foi apresentado aos maranhenses. Tais mulheres trouxeram realidade ao tema, localizando-o temporalmente. E a fantasia ficou por conta da heroína Raimunda, que alternou momentos de bravura e romance à lá Cinderela.

#Diálogos e inserções bem construídos
Se alguém na plateia tivesse alguma impossibilidade de enxergar, essa pessoa não teria dificuldades de também apreciar o desenvolvimento da Flor. Os diálogos iniciais da apresentação da rainha dos babaçus, embora ligeiramente pendendo ao didatismo, estão bastante pertinentes. Os discursos em nome das quebradeiras de coco e do padre Josino garantiram impulsividade ao enredo. Com toda certeza, a fala final da personagem Raimunda garente grandeza, emoção, além de ser surpreendente. Amarra o tema de forma sagaz e finaliza a apresentação com elegância. Graças aos diálogos, temos certeza de que a definição das palavras que compõem o tema saiu de forma natural, garantindo precisão no que iriam defender.

#Trilha sonora consoante ao tema
Cada canção escolhida pela Queridinha causava uma emoção diferente na plateia. Longe de misturar drama e frescor num balaio de gato que poderia causar danos aos corações do público, a ordem das canções é muito apropriada ao carrossel de sentimentos que vivemos com a apresentação da Flor. Apelando para músicas em sua maioria desconhecidas do público em geral, os inventivos artistas da Mandacaru cultivaram canções ora simples, ora arrojadas, sempre capazes de encantar ao público. Grande destaque a Coco Babaçu S/A. A música que mistura drama, história de vida, humor, samba e frescor garantiu a saúde musical da Flor este ano. Tão evidente o acerto, que não tiveram medo de encerrar sua apresentação com o emblemático refrão “Pra quebrar o coco, o cacete tem que ser duro”.

#Figurinos que marcam a evolução do enredo
Devo admitir que este ano os figurinos não estiveram tão estonteantes na comparação com o ano anterior. Mas, do outro lado, creio que eles estão pertinentes ao tema. A não ser pelo incremento de sandálias que ficaram exuberantes nos pés das belas moças que compõem a quadrilha (por que não os cavalheiros?) os figurinos marrons não ficarão tão bem resguardados em nossas memórias afetivas. Porém, a Flor de Mandacaru conseguiu um efeito muito interessante: fazer o figurino acompanhar a evolução do enredo, o que o torna fantástico e anula quaisquer críticas. Enquanto víamos o drama de Raimunda perder suas terras, as damas trajavam o marrom, logo que a noiva descobre o amor,  num truque de figurino, elas trocam o marrom pela predominância do vermelho e os recatados lenços por tiaras de flores coloridas. Aí mora o coração do espetáculo!

#Marcador-divo
Embora mereça uma postagem dedicada somente a ele, Gustavo é um dos fatores que garantiram sucesso à Flor deste ano. Impossível dissociar o tema da figura do Padre Josino. Após um início como marcador não tão interessante, o artista decidiu investir no personagem que lhe deram, deixando barbas e cabelos crescerem para termos a impressão de estarmos realmente próximos ao padre Josino. Incrementando o enredo com emoção e seriedade, a figura do marcador deixa de ser um mero terceiro e passa a ser parte essencial da construção de uma história. Se o tema é majestoso, coroamos o imortal Gustavo como rei!


#Referências ousadas
Tudo o que vimos em vinte e cinco minutos respira babaçu. O fruto que é símbolo do nosso Estado está presente nos dramas e nas alegrias das quebradeiras. Ora como instrumentos de trabalho, ora como verdadeiras armas, o cacete e do babaçu estão perambulantes em todo o espetáculo nas mãos apenas das guerreiras mulheres. Seja na luta pela terra, quando o fazendeiro expulsa Raimunda, impossibilitando-a de garantir seu sustento ao momento em que o público recebe como presente alguns produtos confeccionados a partir do babaçu. A referência mais inteligente fica por conta do encantador vestido dos reis deste ano, que lembra o cofo onde são carregados os babaçus para a venda. O enredo da Flor poderia ter caído num didatismo terrível. Apresentar as quebradeiras como maranhenses que sofrem, mas que carregam o gene da alegria afastaram nossa Queridinha desse terrível fim.


#Interatividade com o público
Tão eficiente quanto lembrar que o babaçu se confunde com o maranhense, é mostrar ao público o que dá para ser confeccionado com ele. Embora o fruto tenha sido importante para a realidade econômica e cultural do nosso Estado, os artistas da Flor farejaram que os mais jovens nem o conheciam. Por isso, num dos momentos mais gostosos da apresentação, a Flor nos lembra que o enredo é a nossa própria história e que portanto, devemos estar presentes nela. Reiterando as quatro senhoras quebradeiras que aparecerem no início do espetáculo do drama, elas aparecem adorosamente simpáticas cantando e oferecendo ao público os derivados do babaçu.  Essa parceria com a plateia a fez cúmplice e por isso esta elegeu a Flor como uma das melhores quadrilhas juninas deste ano.


Há apenas um fato que devo admitir sua crueldade: infelizmente, são apenas vinte e cinco minutos de apresentação. Essas duas dezenas e meia de minutos são suficientes aos jurados entenderem porque o grupo merece medalhas de ouro em 2015. Porém, para nós, carentes espectadores, parecem passar num verdadeiro apagar das luzes. Tenho certeza que se tivessem noventa ou sessenta minutos, ainda assim teríamos uma apresentação graciosa e emocionante. Afinal, caros leitores, não podemos nos esquecer de que o enredo da Flor é uma fantasia que se entrelaça à nossa história. Graças à sede de viver de uma quebradeira avó é que estamos aqui apreciando mil e quinhentos suculentos segundos de apresentação memorável da Flor de Mandacaru. Desse jeito, melhor não pensar na maravilha que poderá vir em 2016!

Com os cumprimentos de,

Carlos K. Fera


*As imagens desta postagem foram colhidas aleatoriamente das páginas pessoais do facebook dos componentes da Flor de Mandacaru.


sexta-feira, 10 de julho de 2015

Um ano das noivas

Depois de um 2014 mais que impecável, em que nós, carentes espectadores de cultura, vimos espetáculos mais que grandiosos, chegou 2015. Novas histórias, coreografias mais ousadas, enredos mais fiéis, trilhas sonoras ainda mais gratificantes tomaram conta dos tablados este ano. Resultado: incontáveis convites a nossas juninas para festejar o arraial de outras cidades. Num ano em que tanta arte boa se destacou, a personagem de branco de cada grupo junino brilhou junto e separadamente dos demais. Foi um ano em que nossas noivas, das mais salientes às mais recatadas, brilharam nos tablados e mostraram que suas escolhas não foram resultados do mero acaso. Desde o uso de saltos altos e a novidade, humildes sandálias, elas mostraram que apesar do marrom, azul, ou o colorido, o branco ainda impera majestosamente. K. Fera destaca a importância do véu e da grinalda em 2015.

Valéria Souza – Flor de Mandacaru
Uma das mais belas surpresas de 2015, não tinha o mesmo destaque ano passado. Valéria recebeu das mãos dos inventivos artistas da Queridinha de Açailândia, a tarefa de interpretar a quebradeira de coco que dá origem ao mais forte enredo deste ano. Com o desafio de levar o espectador às lembranças de seus antepassados, a babaçueira não tremeu e mostrou perfeição nos momentos em que tinha de interpretar a doce Raimunda e garra nos momentos que tinha em mãos a guerreira quebradeira de coco. Com um figurino graciosamente mutante, Valéria transitou com exatidão entre os papéis de jovem apaixonada e mulher que luta. Muitas faces encarnaram no corpo de uma única artista! E para aqueles que não têm lembrança da juventude de suas mães e avós quebradeiras de coco, guardaram na memória a linda imagem de Valéria quebrando o coco babaçu com o cacete ao fim dos curtos vinte e cinco minutos da apresentação da Flor.

Gleivane Campos – Caipiras da Serra
Vestir de azul a noiva mais terna do ano que passou  revelou-se um grande acerto da Caipiras da Serra. Num enredo interessante, Caipiras decidiu falar da pedra Turmalina, e assim como esse blogueiro preveu, decidiram personificar essa preciosa pedra nos tablados. Enquanto víamos o noivo garimpeiro conquistar sua fortuna, Gleivane perambulava timidamente no arraial vestida em tons de azul e branco. Como se só o público pudesse percebê-la, a personagem pairava mudamente permitindo-nos entender que a maior riqueza do garimpeiro estava ali o tempo todo e ninguém da trama conseguia apreciá-la, como nós, espectadores, fizemos durante os momentos iniciais da apresentação. Surpresa maior é quando a enxergamos vestida de branco, exibindo um dos mais belos vestidos e penteados da Açailândia Junina. Com graça, sorrisos e muito domínio coreográfico, Gleivane conquista os 67 corações de sua quadrilha, antes cegos, e qualquer multidão que a assista.

Ana Beatriz – Arrasta-pé
O ano, para uma das juninas mais tradicionais da cidade de ferro, mostrou-se promissor. Depois de um enredo levemente superior à arte do ano passado, tiveram a presença de uma noiva espetacular. A quadrilha junina, embora já não lembre a mesma tradicional que brilhava no ano de 2006, ainda guarda uma característica que a faz reviver esses tempos: canções ferozes, que exigem de seus componentes doação total para executar as coreografias. Talvez tal fato justifique ainda o nome dessa quadrilha. Nesse quesito, Ana Beatriz brilhou como a personagem de branco e garantiu o sucesso junto à plateia. Que tal graça possa ser vista no ano que vem na Açailândia Junina.

Joselita Marques – Matutos do Rei

Bem sabemos, caros leitores, que a Imperadora não tem medo de inovar, nem que isso custe críticas à sua arte diferenciada. E nesse ano, após sugerirem quatro noivas no doce arraial do pescador, sabiam que novamente tinham de reinventar a roda. Não foi por acaso, a escolha da jovem Joselita para protagonizar o espetáculo da Receita. Precisavam de uma noiva que fugisse dos padrões; ora saliente, ora debochada, ora sonsa, ora escandalosa, que dançasse e atuasse como nenhuma outra no Arraial. Encontraram todas essas características em Joselita, que vejam só a ironia, é uma noiva que vale por quatro. A artista parece estar se divertindo nos tablados, embora encharcados de teatralidade, os movimentos da noiva que não casou virgem soam tão naturais que culmina na vontade de subir no Arraial e ser mais um noivo para disputá-la.

Ágda Santos – Junina Koroné
A simplicidade do tema da Koroné engalfinhou-se com a exuberância de seus componentes. E o resultado foi excelente! A balsense trouxe uma explosão de cores e criatividade marcada por uma história pueril, mas eternamente bonita. Nesse meio, Ágda Santos brilhava como Luara, a Lua, que mantinha um caso de amor com a estrela mais importante do universo. A noiva, que vivia no embate de encontrar seu amado, já que Sol e Lua alternam sua iluminação sobre a Terra, deu vida a um enredo sobre o amor entre diferentes. E no ápice da apresentação, quando o Sol e a Lua finalmente se encontram, a noiva ganha seu momento mais memorável e torna-se mais que um mero satélite: uma estrela. Ágda manteve-se brilhante nesse enredo gracioso e com uma missão bastante difícil: estar à frente, marcando um alinhamento que este ano, foi primoroso.

Obs.: Todas as imagens que abrilhantam esta postagem foram reproduzidas diretamente do perfil do facebook das referidas.
Obrigado, Igor Camargo e Matheus Alves.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Da suavidade das ondas do mar à agressividade do líquido sagrado

Imagem: Site AçaiVip

Depois de uma longa demora, eis que me faço novamente presente nesse sítio virtual pelo qual tenho extenso carinho. Mas novamente minha ausência tem explicação. Após uma série de atividades que a pessoa física por trás desse incógnito bogueiro teve de cumprir na sua vida chata e rotineira, não sobrou tempo para essa figura K. Fera se expressar. E há um pouco de culpa nas agendas das protagonistas juninas de Açailândia. Esse ano, para desespero de meu escasso tempo, elas estão maiores e cada vez encantando outras cidades satélites fora do eixo desse bogueiro. Resultado de trabalhos cada vez mais detalhistas e ousados.

Após um ano de extenso trabalho, digno das quadrilhas pernambucanas, a arte da Matutos do Rei deste ano, tinha um desafio muito alto, que era propor algo ainda superior ao tão delicioso mar da Ilusão que Xico Cruz e Tharles Ponciano construíram nos tablados de 2014. Por si só, isso representaria uma cruz muito pesada, pois o interessante espetáculo do ano passado, em que figurinos, coreografias, teatro, trilha sonora tiveram um sobressalto divino, dentro de um conceito estrutural detalhado, determinou um novo momento da história da Açailândia Junina, levando aqueles jovens artistas para concorrer com as devoradoras do Nordeste. A Imperadora não teve receio, confiando-se em seu espetáculo leve e gracioso, fez nosso Estado ter uma nova colocação na disputa, o que representa um marco na história do município e do Maranhão.

Com um espetáculo saboroso, envolvente e por vezes, apaixonante, Matutos viu no mês de Agosto do ano passado um desafio afável. O quê colocar em prática no ano seguinte? Tal interrogação, meus caros leitores, intrigou a minha jovem mente que respira cultura junina há pouco mais de uma década. E inacreditavelmente, a Imperadora decidiu ir pelo caminho da antítese: a agressividade do espetáculo. Sim! Se ano passado tínhamos a leveza transpirando até nos banners que ilustravam o espetáculo, seus artistas esse ano decidiram ser mais agressivos. Mostrar nos diálogos, figurinos, trilha sonora e coreografia um espetáculo mais viril e com certeza, tão sedutor como a leveza das águas azuis de um “mar salgado”.

Tal agressividade estava encharcada nos figurinos que este ano a cor escolhida foi a predominância marrom, no maior duelo em relação ao ano anterior da Imperadora. Nas coreografias, um forte teor teatral que se construiu belamente na figura dos noivos e dos vilões do prólogo, saltos quase ornamentais, tudo temperado com caras e bocas como nos antigos filmes mudos, além da padronização militar de, entre outros, barbas e gestos. Nos diálogos, uma linguagem mais carregada, falas ora mais cruas e fortes, em tons mais altos, além de um humor já patrimônio desse grupo junino. Enquanto isso, a trilha sonora embalava um resultado multiartístico excelente, com referências ousadas à cavalaria medieval, mitologia romana, regionalismo nordestino e uma dose de fantasia tão necessários ao folclore junino. Nesse último aspecto, houve uma escolha interessante, porém um pouco preocupante no que diz respeito à remasterizaçao das canções mais antigas.

O grupo junino apresentou um enredo bem amarrado, coerente e ora ou outra até instigante. Investindo no mistério de qual seria a receita de um tal líquido sagrado realizado pelo pai da noiva, o enredo levava o espectador uma conclusão mais que óbvia. Embora estrambótica fosse a obviedade, o momento da descoberta de qual era finalmente a bebida que tornava o padre tão alegre, a revelação foi um tanto desanimadora. Não conseguiria concluir se tal fato se deu pela forma como a revelação foi apontada ou mesmo se era necessário ao enredo deixar claro ao esperto espectador que a bebida, tão obscura aos personagens da trama, tratava-se da cachaça.

Bem verdade que as surpresas deste ano que marcaram a respeitável história da Imperadora foram os figurinos cada vez mais exuberantes, um enredo ainda mais varonil, uma trilha sonora eficiente, e claro uma noiva excelente que fugiu do estereótipo de virgem e santa, últimas características que o enredo inovador exigia. Não sou fã das comparações, mas esse texto reclama. No confronto da agressividade contra a suavidade, creio que a primeira tem mais chances de se impor. Mas no que diz respeito à cultura junina, essas forças se somam. Diria que Matutos do Rei conseguiu novamente se destacar nos arraiás que frequentei embora a arte desse ano não fique tão bem resguardada nas nossas memórias de espectador como o duelo azul-branco do ano passado. Do outro lado, o enredo mais adulto e agressor mostrou que esse grupo cultural tem ainda os pulmões – como eles mesmos provaram ao cantar à capela diversas vezes na apresentação – eficientes para vocalizar que são sim, um dos melhores grupos que temos na tão já ilimitada Açailândia Junina. Salve Imperadora!

Com os cumprimentos de,
Carlos K. Fera