Imagem: Montagem de Danrley Fagundes
Após um período muitíssimo
conturbado capaz de defenestrar a pessoa física deste bogueiro, aqui estou eu.
E pela primeira vez, a motivação para meus escritos estão muito mais além do
Arraial. Esta semana, enquanto cumpria minha labuta diária, integrantes da
Queridinha de Açailândia abordavam diversas pessoas em busca de recursos para
realizar uma viagem tranquila para Parnaíba. Nada tão excepcional se não fosse
por uma antítese interessante: enquanto a nossa quadrilha do quebra-coco pedia
com clemência valores na Açailândia Junina, refletia que curiosamente a plebeia tem
em mãos o tema mais rico do ano.
Enriquecer pequenos tesouros para
torná-los grandes foi a tarefa que conduziu a Babaçueira este ano. Um fruto tão
pequeno, tão mínimo tornou-se amplamente comentado dentro e fora dos arraiás,
servindo inclusive como referências para aulas e projetos de Geografia e
História de uma escola. Em meus textos, sempre acreditei que um tema é uma
bandeira que se finca num Arraial. Porém, graças à Flor, terei que repensar
este conceito, acrescentando a palavra fidelidade. Afinal, “Meu sobrenome é babaçu” ultrapassou as barreiras dos
tablados, invadindo conversas na mesa de bares, escolas e é claro, as redes
sociais. Diante a eficiência do tema da Queridinha, K. Fera aqui enumera os
sete fatores que fizeram a Flor ter um ano ímpar.
#Realidade sofrida versus realidade
cantada
A escolha de um tema exige uma
atitude bastante difícil: traduzi-lo para o universo junino. E como se sabe,
essa roupagem é alegre, fantasiosa e colorida. Flor de Mandacaru desejava falar
sobre as quebradeiras de coco. E para tanto, tinha de transitar entre o
sofrimento dessas mulheres e a alegria que lhes é peculiar. A receita foi
sabiamente apresentar no início do prólogo um quarteto senhoras que pareciam ter
saltado diretamente de um documentário; além do padre Josino, figura real e
importante que foi apresentado aos maranhenses. Tais mulheres trouxeram realidade
ao tema, localizando-o temporalmente. E a fantasia ficou por conta da heroína
Raimunda, que alternou momentos de bravura e romance à lá Cinderela.
#Diálogos e inserções bem
construídos
Se alguém na plateia tivesse
alguma impossibilidade de enxergar, essa pessoa não teria dificuldades de
também apreciar o desenvolvimento da Flor. Os diálogos iniciais da apresentação
da rainha dos babaçus, embora ligeiramente pendendo ao didatismo, estão
bastante pertinentes. Os discursos em nome das quebradeiras de coco e do padre Josino garantiram
impulsividade ao enredo. Com toda certeza, a fala final da personagem Raimunda garente grandeza, emoção, além de ser surpreendente. Amarra o tema de forma sagaz e
finaliza a apresentação com elegância. Graças aos diálogos, temos certeza de que a
definição das palavras que compõem o tema saiu de forma natural, garantindo
precisão no que iriam defender.
#Trilha sonora consoante ao
tema
Cada canção escolhida pela
Queridinha causava uma emoção diferente na plateia. Longe de misturar drama e
frescor num balaio de gato que poderia causar danos aos corações do público, a
ordem das canções é muito apropriada ao carrossel de sentimentos que vivemos
com a apresentação da Flor. Apelando para músicas em sua maioria desconhecidas
do público em geral, os inventivos artistas da Mandacaru cultivaram canções ora
simples, ora arrojadas, sempre capazes de encantar ao público. Grande destaque
a Coco Babaçu S/A. A música que mistura drama, história de vida, humor, samba e
frescor garantiu a saúde musical da Flor este ano. Tão evidente o acerto, que não
tiveram medo de encerrar sua apresentação com o emblemático refrão “Pra
quebrar o coco, o cacete tem que ser duro”.
#Figurinos que marcam a
evolução do enredo
Devo admitir que este ano os
figurinos não estiveram tão estonteantes na comparação com o ano anterior. Mas,
do outro lado, creio que eles estão pertinentes ao tema. A não ser pelo
incremento de sandálias que ficaram exuberantes nos pés das belas moças que
compõem a quadrilha (por que não os cavalheiros?) os figurinos marrons não
ficarão tão bem resguardados em nossas memórias afetivas. Porém, a Flor de
Mandacaru conseguiu um efeito muito interessante: fazer o figurino acompanhar a
evolução do enredo, o que o torna fantástico e anula quaisquer críticas. Enquanto
víamos o drama de Raimunda perder suas terras, as damas trajavam o marrom, logo
que a noiva descobre o amor, num truque
de figurino, elas trocam o marrom pela predominância do vermelho e os recatados
lenços por tiaras de flores coloridas. Aí mora o coração do espetáculo!
#Marcador-divo
Embora mereça uma postagem
dedicada somente a ele, Gustavo é um dos fatores que garantiram sucesso à Flor
deste ano. Impossível dissociar o tema da figura do Padre Josino. Após um início como
marcador não tão interessante, o artista decidiu investir no personagem que lhe
deram, deixando barbas e cabelos crescerem para termos a impressão de estarmos
realmente próximos ao padre Josino. Incrementando o enredo com emoção e
seriedade, a figura do marcador deixa de ser um mero terceiro e passa a ser
parte essencial da construção de uma história. Se o tema é majestoso, coroamos o imortal Gustavo como rei!
#Referências ousadas
Tudo o que vimos em vinte e cinco
minutos respira babaçu. O fruto que é símbolo do nosso Estado está presente nos
dramas e nas alegrias das quebradeiras. Ora como instrumentos de trabalho, ora como verdadeiras armas, o cacete e do babaçu estão perambulantes em todo o espetáculo nas mãos apenas das guerreiras mulheres. Seja na luta pela terra, quando o
fazendeiro expulsa Raimunda, impossibilitando-a de garantir seu sustento ao
momento em que o público recebe como presente alguns produtos confeccionados a
partir do babaçu. A referência mais inteligente fica por conta do encantador vestido
dos reis deste ano, que lembra o cofo onde são carregados os babaçus para a
venda. O enredo da Flor poderia ter caído num didatismo terrível. Apresentar as quebradeiras como maranhenses que sofrem, mas que carregam o gene da
alegria afastaram nossa Queridinha desse terrível fim.
#Interatividade com o público
Tão eficiente quanto lembrar que
o babaçu se confunde com o maranhense, é mostrar ao público o que dá para ser
confeccionado com ele. Embora o fruto tenha sido importante para a realidade econômica
e cultural do nosso Estado, os artistas da Flor farejaram que os mais jovens
nem o conheciam. Por isso, num dos momentos mais gostosos da apresentação, a
Flor nos lembra que o enredo é a nossa própria história e que portanto, devemos
estar presentes nela. Reiterando as quatro senhoras quebradeiras que aparecerem
no início do espetáculo do drama, elas aparecem adorosamente simpáticas cantando e oferecendo ao
público os derivados do babaçu. Essa parceria com a plateia a fez cúmplice e
por isso esta elegeu a Flor como uma das melhores quadrilhas juninas deste ano.
Há apenas um fato que devo
admitir sua crueldade: infelizmente, são apenas vinte e cinco minutos de apresentação. Essas
duas dezenas e meia de minutos são suficientes aos jurados entenderem porque o grupo
merece medalhas de ouro em 2015. Porém, para nós, carentes espectadores, parecem
passar num verdadeiro apagar das luzes. Tenho certeza que se tivessem noventa
ou sessenta minutos, ainda assim teríamos uma apresentação graciosa e emocionante. Afinal, caros leitores, não podemos nos esquecer de que o enredo da Flor é uma fantasia que se entrelaça à nossa história. Graças à sede de viver de uma quebradeira avó é que estamos aqui
apreciando mil e quinhentos suculentos segundos de apresentação memorável da
Flor de Mandacaru. Desse jeito, melhor não pensar na maravilha que poderá vir em 2016!
Com os cumprimentos de,
Carlos K. Fera
*As imagens desta postagem foram colhidas aleatoriamente das páginas pessoais do facebook dos componentes da Flor de Mandacaru.
Com os cumprimentos de,
Carlos K. Fera
*As imagens desta postagem foram colhidas aleatoriamente das páginas pessoais do facebook dos componentes da Flor de Mandacaru.

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