quarta-feira, 30 de julho de 2014

K. Fera entrevista: Renato Costa

Imagem cedida pelo entrevistado

Ele é Renato vieira, 30 anos, educador em dança, bailarino e coreógrafo. Um jovem com trajetória conhecida na cidade do ferro, com muitas habilidades artísticas e bons conhecimentos culturais que o catapultaram para ser um dos jurados do Arraial Municipal de Açailândia. Ele teve a ingrata missão de julgar as nossas queridas juninas, na escolha da melhor, quando, individualmente, cada uma delas brilha a seu modo. Nessa entrevista, Renato nos conta um pouco de sua história, fala do belo movimento junino e determina as características que uma quadrilha deve possuir para que seu espetáculo seja realmente inesquecível.

1. Conte-nos um pouco da sua trajetória artística em Açailândia.
RC: Comecei a fazer aulas de dança no Centro de Defesa em 2004, com o professor Marcelo Granjeiro. Em 2006 fiz um curso de agentes populares em danças afro e popular, no mesmo ano comecei a dar aulas na Escola Municipal Jurgleide Alves Sampaio no grupo de dança Afro-jas até o ano de 2012 durante esse percurso fui jurado no arraial municipal de Açailândia no ano de 2010 onde a campeão foi a junina arrasta-pé onde em 2013 eu me tornaria coreografo em 2012 e 2013 fui jurado do nacional de quadrilhas juninas em Palmas, Tocantins e em 2014 jurado no estadual maranhense que aconteceu em Pedreiras – Ma e hoje trabalho com meu grupo de dança corpos em movimentos.

2. Como você vê o movimento junino na nossa cidade?
RC: Com a experiência que tenho hoje, está ótimo, mas podemos melhorar.  Acredito que alguns presidentes teriam que brigar mais pelo movimento e não só por sua quadrilha lógico que todos tem seus trabalhos particulares, mas falo do movimento e não do individualismo. Mas reafirmo os espetáculos estão maravilhosos. Aproveito o espaço para dar parabéns a todos os coreógrafos e todas as juninas de nossa cidade por estarem levando o nome da nossa cidade a outros estados.

3. Como você vê o crescimento meteórico que nossas juninas tiveram em relação aos anos anteriores?
RC: Com certeza foi um impacto não só para eles próprios mas também para a população que estava acostumada com o tradicional, e de repente, o estilizado. Uma evolução muito positiva, cheia de cores e brilho, mais alegria muita expressão e dedicação!

4. O que você considera inesquecível na apresentação das juninas açailandenses em 2014?
RC: A dedicação, a vontade de vencer o fazer cultura por amor. O compromisso de todos e todas com seus grupos foi inesquecível.

5. Qual sua opinião das escolhas dos temas das juninas e do repertório em 2014?
RC: Sei que se torna muito difícil ao falar de temas e repertórios, pois cada grupo tem seu modo de trabalhar e também não sei como seriam as reações depois que eu comentasse.  Então talvez poderia dizer quem trouxe um bom tema e um repertório.

6. Qual sua opinião sobre os figurinos ainda mais sofisticados utilizados pelas juninas em 2014?
RC: Esses são sem opinião até mesmo porque todos os figurinos estão a caráter dos seus grupos.

7. A quadrilha junina vem despertando a atenção de vários grupos em Açailândia. Você acredita que podemos chamar as festas juninas já como “tradicionais” em nossa cidade?
RC: Sim, é claro, já deveria ser chamado os anos anteriores tivemos uma evolução muito grande e o tradicional já existe as juninas pois até mesmo a população já aprenderam a amá-la .

8.Conte-nos um pouco sobre a difícil tarefa de julgar nossas juninas.
RC: Como já falei anteriormente que se torna muito difícil falar sobre esse tipo de trabalho e de competição só pode haver um primeiro lugar e todos querem ganhar e como só a um vencedor a culpa sempre cai para cima dos jurados, essa é a difícil missão.

9.Como você vê o futuro dessa Açailândia Junina?
RC: Podemos ir mais longe, a nossa cidade já sediou já um estadual, as juninas já estão gradativamente sendo reconhecidas por outros estados, então falta pouco para estarmos nos patamar dos outros grandes estados.

10. Qual sua opinião sobre este (blogueiro K. Fera)? Costuma ler seus textos?
RC: Já conversamos algumas vezes e sei que não é fácil ser jurado ou ser um critico e principalmente quando se fala do movimento junino mas em respeito a você vejo que os seus textos vêm abrindo a mente de alguns quadrilheiros de nossa cidade, pois eu tenho acompanhado, e você sempre pensa o melhor para esse movimento. Então, parabéns pelo seu trabalho.

"Eu encosto a minha mão a sua e juntos iremos fazer tudo aquilo que eu não consegui fazer sozinho pois só assim de mãos das poderemos chegar a um objetivo comum."


quinta-feira, 24 de julho de 2014

O ano em que a Junina vestiu grife

Imagens: Montagem/Facebook

Caros colegas... Meu coração quadrilheiro vai gradativamente se cercando da saudade e da angústia por ter de esperar até o próximo ano para rever esse movimento junino exemplarmente brilhante que ocorreu nesse par Junho/Julho. Ao mesmo tempo em que aumenta meu sofrimento, minha curiosidade vai ficando cada vez maior, pois sei que virão espetáculos grandiosos no ano de 2015 e, que certamente, deixarão meus textos de 2014 envelhecidos e quem sabe até, exagerados. Eu ainda espero vê-los assim.

Antes de protagonizar os espetáculos juninos que vimos este ano em Açailândia, Imperatriz e Balsas – eixo limitado deste blogueiro -, cada grupo junino preparou-se com bastante antecedência para mostrar no arraial um grande espetáculo de trinta minutos no qual o aspecto visual – coreografias, cores, cenários, figurinos – e o aspecto sonoro – marcação, repertório, dramatização – amarram-se com graça na escolha de um tema. Alguns mais, outros menos, outros bem menos, tivemos espetáculos capazes de concorrer com as já muito tradicionais devoradoras do Nordeste. Para chegar a essa condição tão honrosa, todos os envolvidos na produção do espetáculo junino tiveram que avançar o limite da criatividade e investir na ousadia e mesmo na provocação. Assim nasceram formas de expressão inéditas, que tivemos o prazer de ver gratuitamente na cidade do ferro, contemplada até nos mínimos detalhes. Mas minha postagem hoje tem uma limitação potencialmente grandiosa: os figurinos.

Este ano nossos brincantes não trajaram apenas roupas coloridas, como o mais preconceituoso entre meus leitores pode afirmar. Vimos esboços de grifes vestirem a expressão de cada uma das quadrilhas. Até aquelas que tiveram destinadas críticas deste blogueiro, conseguiram surpreender nesse quesito. As roupas tão bem trabalhadas não serviram apenas para colorir o arraial.  Foi o uniforme da nossa seleção de artistas.

Para quem desconhece, grife é uma palavra francesa, “griffe”, e em bom português significa garra. Não sei como essa palavra chegou ao mundo dos vestuários, mas a utilizou aqui porque a referida tradução tem correspondência com o boom junino na nossa região. Afinal, garra é uma característica de grandes animais de grande porte, como águias e gaviões. É graças à garra de nossos brincantes, filhos dos açaizais, que eles demonstraram a sua força de devoradores, ganhando fãs e originando festivais juninos em muitos pontos da nossa região. Sem garra, fé, coragem, ousadia não teríamos motivação de permanecer em Açailândia nos meses de junho e julho.

Uma grande surpresa este ano traduziu-se pelo figurino da Matutos do Rei. A quadrilha mais uma vez conseguiu se reinventar e trouxe a tona algo que somente eles poderiam dominar: tons degradê marcaram a apresentação do Arraial da Ilusão. Embora a apresentação do grupo junino possa ser considerada inesquecível, as imagens que ficarão serão daqueles tons revezados de azul, que traduziu com maestria o movimento e a ambiguidade do mar. Ouso até dizer que os verdadeiros destaques da Matutos vestiram azul, e não branco ou as cores que marcam os destaques, pois foi o tom azulado que ficará eternamente marcado quando se quer falar da arte do grupo de 2014. Além disso, os vestidos das personagens Mãe-d’água e Janaína se mostraram deslumbrantes, bem como os adereços e uma maquiagem que permitiu essa apresentação ser empolgante.

A Arrasta-pé, que capengou em arranjos importantes como a construção da história que permeia suas coreografias e o escolha de um tema memorável, enfrentou o paradoxo de ter um dos figurinos mais bem apreciados do ano de 2014. O que vimos foi realmente um espetáculo na construção de uma grife sofisticada com adereços de extremado bom gosto. Impecável! A força das cores quentes, entre elas destaque ao amarelo e o laranja, marcaram presença no arraial da Arrasta-pé, presenteando damas e cavalheiros com adornos e chapéus marcantes. A mais tradicional das quadrilhas esteve muito fotogência este ano e deve continuar investindo em seus figurinos que revelam uma mistura do tradicionalismo com a inovação.

Flor de Mandacaru investiu na dualidade entre a morte e a fé e como tal, preferiu usar o famoso “pretinho básico”. Não seria uma cor adequada a uma festa acostumada ao brilho de São João, mas seus artistas souberam bem conjugar as nuances desse tema em todo a grife que decidiram vestir. Terços enfeitaram os chapéus dos rapazes enquanto apareciam nos colos das damas. O preto, frio, duelava com uma cor alto astral, o amarelo. O pelotão primeiro apresentava vestidos muito bem desenhados, inclusive aqueles usados por Ana Pimenta e Bruna Adriele ficarão resguardados em minha memória afetiva. Os sapatos, que mantinham a antítese do preto com outra cor também merecem elogios. Os adereços nas cabeças das damas faziam alusão às viúvas, mais um ponto positivo. E não há como esquecer que a grife Flor de Mandacaru teve a honra de vestir a Virgem Maria, numa encenação emocionante e inspirada.

O colorido da Arraiá do Koroné foi um ponto positivo a eles. A quadrilha junina mostrou que possui personalidade que se traduziu no largo uso de cores e de adereços. Embora satisfeito, peço mais energia em 2015. Vimos uma apresentação saborosa, é verdade, que foi temperada pela cor e pela graça, como já pronunciado em outra postagem. O que mais tem minha admiração é sua coragem de investir em figurinos que assim como a Arrasta-pé, consegue manter doses de tradição e inovação.

Caipiras da Serra decidiu apostar na combinação vermelho/amarelo para falar de dois importantes pares: Romeu/Julieta, Lampião/Maria Bonita. Com uma das mais belas e simpáticas noivas, o vestido que a personagem usa durante suas apresentações é algo muito bonito de se ver em cena. A quadrilha esbanjou qualidade na escolha dos figurinos e conseguiu apostar num figurino especial. Enquanto isso a Zé Comeu apostava numa grife mais sofisticado com forte investimento no brilho.

Entre grifes que marcaram as trajetórias das principais quadrilhas de 2014, um sentimento de incômodo devo relatar: enquanto há uma apoteose nas mãos de quem desenha os figurinos femininos, aqueles destinados aos cavalheiros sofrem com um certo abandono. Por isso, meus elogios limitaram-se, na maioria das vezes, aos vestuários das damas. É preciso ousar mais um pouco, para que a grife destinada aos rapazes brilhem em forma conjunta aos vestidos femininos. A arte junina está cada vez mais preciosa, e como tal, devemos lapidar ainda mais os diamantes que aos poucos, vamos construindo a fortuna junina. E lembrem-se, caros quadrilheiros, a imagem que o público irá guardar em suas memórias terá como protagonistas a roupa que vocês vestem. E eu, lembrarei com carinho da fila de malas nos ônibus onde se guardam esses verdadeiros tesouros.

Com os cumprimentos de
Carlos K. Fera.