Imagens: Montagem/Facebook
Caros colegas... Meu coração
quadrilheiro vai gradativamente se cercando da saudade e da angústia por ter de
esperar até o próximo ano para rever esse movimento junino exemplarmente
brilhante que ocorreu nesse par Junho/Julho. Ao mesmo tempo em que aumenta meu
sofrimento, minha curiosidade vai ficando cada vez maior, pois sei que virão
espetáculos grandiosos no ano de 2015 e, que certamente, deixarão meus textos
de 2014 envelhecidos e quem sabe até, exagerados. Eu ainda espero vê-los assim.
Antes de protagonizar os espetáculos
juninos que vimos este ano em Açailândia, Imperatriz e Balsas – eixo limitado
deste blogueiro -, cada grupo junino preparou-se com bastante antecedência para
mostrar no arraial um grande espetáculo de trinta minutos no qual o aspecto
visual – coreografias, cores, cenários, figurinos – e o aspecto sonoro –
marcação, repertório, dramatização – amarram-se com graça na escolha de um
tema. Alguns mais, outros menos, outros bem menos, tivemos espetáculos capazes
de concorrer com as já muito tradicionais devoradoras do Nordeste. Para chegar
a essa condição tão honrosa, todos os envolvidos na produção do espetáculo
junino tiveram que avançar o limite da criatividade e investir na ousadia e
mesmo na provocação. Assim nasceram formas de expressão inéditas, que tivemos o
prazer de ver gratuitamente na cidade do ferro, contemplada até nos mínimos
detalhes. Mas minha postagem hoje tem uma limitação potencialmente grandiosa:
os figurinos.
Este ano nossos brincantes não trajaram
apenas roupas coloridas, como o mais preconceituoso entre meus leitores pode
afirmar. Vimos esboços de grifes vestirem a expressão de cada uma das
quadrilhas. Até aquelas que tiveram destinadas críticas deste blogueiro,
conseguiram surpreender nesse quesito. As roupas tão bem trabalhadas não
serviram apenas para colorir o arraial. Foi o uniforme da nossa seleção de
artistas.
Para quem desconhece, grife é uma
palavra francesa, “griffe”, e em bom
português significa garra. Não sei como essa palavra chegou ao mundo dos
vestuários, mas a utilizou aqui porque a referida tradução tem correspondência com
o boom junino na nossa região. Afinal,
garra é uma característica de grandes animais de grande porte, como águias e
gaviões. É graças à garra de nossos brincantes, filhos dos açaizais, que eles
demonstraram a sua força de devoradores, ganhando fãs e originando festivais
juninos em muitos pontos da nossa região. Sem garra, fé, coragem, ousadia não
teríamos motivação de permanecer em Açailândia nos meses de junho e julho.
Uma grande surpresa este ano traduziu-se
pelo figurino da Matutos do Rei. A quadrilha mais uma vez conseguiu se
reinventar e trouxe a tona algo que somente eles poderiam dominar: tons degradê
marcaram a apresentação do Arraial da Ilusão. Embora a apresentação do grupo
junino possa ser considerada inesquecível, as imagens que ficarão serão
daqueles tons revezados de azul, que traduziu com maestria o movimento e a
ambiguidade do mar. Ouso até dizer que os verdadeiros destaques da Matutos
vestiram azul, e não branco ou as cores que marcam os destaques, pois foi o tom
azulado que ficará eternamente marcado quando se quer falar da arte do grupo de
2014. Além disso, os vestidos das personagens Mãe-d’água e Janaína se mostraram
deslumbrantes, bem como os adereços e uma maquiagem que permitiu essa
apresentação ser empolgante.
A Arrasta-pé, que capengou em arranjos
importantes como a construção da história que permeia suas coreografias e o escolha
de um tema memorável, enfrentou o paradoxo de ter um dos figurinos mais bem
apreciados do ano de 2014. O que vimos foi realmente um espetáculo na
construção de uma grife sofisticada com adereços de extremado bom gosto. Impecável! A
força das cores quentes, entre elas destaque ao amarelo e o laranja, marcaram
presença no arraial da Arrasta-pé, presenteando damas e cavalheiros com adornos
e chapéus marcantes. A mais tradicional das quadrilhas esteve muito fotogência este
ano e deve continuar investindo em seus figurinos que revelam uma mistura do
tradicionalismo com a inovação.
Flor de Mandacaru investiu na dualidade
entre a morte e a fé e como tal, preferiu usar o famoso “pretinho básico”. Não
seria uma cor adequada a uma festa acostumada ao brilho de São João, mas seus
artistas souberam bem conjugar as nuances desse tema em todo a grife que
decidiram vestir. Terços enfeitaram os chapéus dos rapazes enquanto apareciam
nos colos das damas. O preto, frio, duelava com uma cor alto astral, o amarelo.
O pelotão primeiro apresentava vestidos muito bem desenhados, inclusive aqueles
usados por Ana Pimenta e Bruna Adriele ficarão resguardados em minha memória
afetiva. Os sapatos, que mantinham a antítese do preto com outra cor também
merecem elogios. Os adereços nas cabeças das damas faziam alusão às viúvas,
mais um ponto positivo. E não há como esquecer que a grife Flor de Mandacaru
teve a honra de vestir a Virgem Maria, numa encenação emocionante e inspirada.
O colorido da Arraiá do Koroné foi um
ponto positivo a eles. A quadrilha junina mostrou que possui personalidade que
se traduziu no largo uso de cores e de adereços. Embora satisfeito, peço mais
energia em 2015. Vimos uma apresentação saborosa, é verdade, que foi temperada
pela cor e pela graça, como já pronunciado em outra postagem. O que mais tem
minha admiração é sua coragem de investir em figurinos que assim como a
Arrasta-pé, consegue manter doses de tradição e inovação.
Caipiras da Serra decidiu apostar na
combinação vermelho/amarelo para falar de dois importantes pares:
Romeu/Julieta, Lampião/Maria Bonita. Com uma das mais belas e simpáticas
noivas, o vestido que a personagem usa durante suas apresentações é algo muito bonito
de se ver em cena. A quadrilha esbanjou qualidade na escolha dos figurinos e conseguiu
apostar num figurino especial. Enquanto isso a Zé Comeu apostava numa grife mais
sofisticado com forte investimento no brilho.
Entre grifes que marcaram as trajetórias
das principais quadrilhas de 2014, um sentimento de incômodo devo relatar:
enquanto há uma apoteose nas mãos de quem desenha os figurinos femininos,
aqueles destinados aos cavalheiros sofrem com um certo abandono. Por isso, meus
elogios limitaram-se, na maioria das vezes, aos vestuários das damas. É preciso
ousar mais um pouco, para que a grife destinada aos rapazes brilhem em forma
conjunta aos vestidos femininos. A arte junina está cada vez mais preciosa, e
como tal, devemos lapidar ainda mais os diamantes que aos poucos, vamos
construindo a fortuna junina. E lembrem-se, caros quadrilheiros, a imagem que o
público irá guardar em suas memórias terá como protagonistas a roupa que vocês
vestem. E eu, lembrarei com carinho da fila de malas nos ônibus onde se guardam esses verdadeiros tesouros.
Com
os cumprimentos de
Carlos
K. Fera.

Belas palavras para boas observações...
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