quinta-feira, 24 de julho de 2014

O ano em que a Junina vestiu grife

Imagens: Montagem/Facebook

Caros colegas... Meu coração quadrilheiro vai gradativamente se cercando da saudade e da angústia por ter de esperar até o próximo ano para rever esse movimento junino exemplarmente brilhante que ocorreu nesse par Junho/Julho. Ao mesmo tempo em que aumenta meu sofrimento, minha curiosidade vai ficando cada vez maior, pois sei que virão espetáculos grandiosos no ano de 2015 e, que certamente, deixarão meus textos de 2014 envelhecidos e quem sabe até, exagerados. Eu ainda espero vê-los assim.

Antes de protagonizar os espetáculos juninos que vimos este ano em Açailândia, Imperatriz e Balsas – eixo limitado deste blogueiro -, cada grupo junino preparou-se com bastante antecedência para mostrar no arraial um grande espetáculo de trinta minutos no qual o aspecto visual – coreografias, cores, cenários, figurinos – e o aspecto sonoro – marcação, repertório, dramatização – amarram-se com graça na escolha de um tema. Alguns mais, outros menos, outros bem menos, tivemos espetáculos capazes de concorrer com as já muito tradicionais devoradoras do Nordeste. Para chegar a essa condição tão honrosa, todos os envolvidos na produção do espetáculo junino tiveram que avançar o limite da criatividade e investir na ousadia e mesmo na provocação. Assim nasceram formas de expressão inéditas, que tivemos o prazer de ver gratuitamente na cidade do ferro, contemplada até nos mínimos detalhes. Mas minha postagem hoje tem uma limitação potencialmente grandiosa: os figurinos.

Este ano nossos brincantes não trajaram apenas roupas coloridas, como o mais preconceituoso entre meus leitores pode afirmar. Vimos esboços de grifes vestirem a expressão de cada uma das quadrilhas. Até aquelas que tiveram destinadas críticas deste blogueiro, conseguiram surpreender nesse quesito. As roupas tão bem trabalhadas não serviram apenas para colorir o arraial.  Foi o uniforme da nossa seleção de artistas.

Para quem desconhece, grife é uma palavra francesa, “griffe”, e em bom português significa garra. Não sei como essa palavra chegou ao mundo dos vestuários, mas a utilizou aqui porque a referida tradução tem correspondência com o boom junino na nossa região. Afinal, garra é uma característica de grandes animais de grande porte, como águias e gaviões. É graças à garra de nossos brincantes, filhos dos açaizais, que eles demonstraram a sua força de devoradores, ganhando fãs e originando festivais juninos em muitos pontos da nossa região. Sem garra, fé, coragem, ousadia não teríamos motivação de permanecer em Açailândia nos meses de junho e julho.

Uma grande surpresa este ano traduziu-se pelo figurino da Matutos do Rei. A quadrilha mais uma vez conseguiu se reinventar e trouxe a tona algo que somente eles poderiam dominar: tons degradê marcaram a apresentação do Arraial da Ilusão. Embora a apresentação do grupo junino possa ser considerada inesquecível, as imagens que ficarão serão daqueles tons revezados de azul, que traduziu com maestria o movimento e a ambiguidade do mar. Ouso até dizer que os verdadeiros destaques da Matutos vestiram azul, e não branco ou as cores que marcam os destaques, pois foi o tom azulado que ficará eternamente marcado quando se quer falar da arte do grupo de 2014. Além disso, os vestidos das personagens Mãe-d’água e Janaína se mostraram deslumbrantes, bem como os adereços e uma maquiagem que permitiu essa apresentação ser empolgante.

A Arrasta-pé, que capengou em arranjos importantes como a construção da história que permeia suas coreografias e o escolha de um tema memorável, enfrentou o paradoxo de ter um dos figurinos mais bem apreciados do ano de 2014. O que vimos foi realmente um espetáculo na construção de uma grife sofisticada com adereços de extremado bom gosto. Impecável! A força das cores quentes, entre elas destaque ao amarelo e o laranja, marcaram presença no arraial da Arrasta-pé, presenteando damas e cavalheiros com adornos e chapéus marcantes. A mais tradicional das quadrilhas esteve muito fotogência este ano e deve continuar investindo em seus figurinos que revelam uma mistura do tradicionalismo com a inovação.

Flor de Mandacaru investiu na dualidade entre a morte e a fé e como tal, preferiu usar o famoso “pretinho básico”. Não seria uma cor adequada a uma festa acostumada ao brilho de São João, mas seus artistas souberam bem conjugar as nuances desse tema em todo a grife que decidiram vestir. Terços enfeitaram os chapéus dos rapazes enquanto apareciam nos colos das damas. O preto, frio, duelava com uma cor alto astral, o amarelo. O pelotão primeiro apresentava vestidos muito bem desenhados, inclusive aqueles usados por Ana Pimenta e Bruna Adriele ficarão resguardados em minha memória afetiva. Os sapatos, que mantinham a antítese do preto com outra cor também merecem elogios. Os adereços nas cabeças das damas faziam alusão às viúvas, mais um ponto positivo. E não há como esquecer que a grife Flor de Mandacaru teve a honra de vestir a Virgem Maria, numa encenação emocionante e inspirada.

O colorido da Arraiá do Koroné foi um ponto positivo a eles. A quadrilha junina mostrou que possui personalidade que se traduziu no largo uso de cores e de adereços. Embora satisfeito, peço mais energia em 2015. Vimos uma apresentação saborosa, é verdade, que foi temperada pela cor e pela graça, como já pronunciado em outra postagem. O que mais tem minha admiração é sua coragem de investir em figurinos que assim como a Arrasta-pé, consegue manter doses de tradição e inovação.

Caipiras da Serra decidiu apostar na combinação vermelho/amarelo para falar de dois importantes pares: Romeu/Julieta, Lampião/Maria Bonita. Com uma das mais belas e simpáticas noivas, o vestido que a personagem usa durante suas apresentações é algo muito bonito de se ver em cena. A quadrilha esbanjou qualidade na escolha dos figurinos e conseguiu apostar num figurino especial. Enquanto isso a Zé Comeu apostava numa grife mais sofisticado com forte investimento no brilho.

Entre grifes que marcaram as trajetórias das principais quadrilhas de 2014, um sentimento de incômodo devo relatar: enquanto há uma apoteose nas mãos de quem desenha os figurinos femininos, aqueles destinados aos cavalheiros sofrem com um certo abandono. Por isso, meus elogios limitaram-se, na maioria das vezes, aos vestuários das damas. É preciso ousar mais um pouco, para que a grife destinada aos rapazes brilhem em forma conjunta aos vestidos femininos. A arte junina está cada vez mais preciosa, e como tal, devemos lapidar ainda mais os diamantes que aos poucos, vamos construindo a fortuna junina. E lembrem-se, caros quadrilheiros, a imagem que o público irá guardar em suas memórias terá como protagonistas a roupa que vocês vestem. E eu, lembrarei com carinho da fila de malas nos ônibus onde se guardam esses verdadeiros tesouros.

Com os cumprimentos de
Carlos K. Fera.

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