Imagem: Montagem de Danrley Fagundes
“Fé, antes de mais nada tem que
acreditar”... O trecho que inicia essa postagem marca o início e o desfecho no
Arraial de um dos grupos que mais brilhou este ano na Açailândia Junina. Flor
de Mandacaru, ou somente Flor para os mais íntimos, apresentou um espetáculo
incrível, acima de tudo mostrando que fé é um tema que eles facilmente dominam.
Em cada rosto, em cada olhar, em cada gesto facial dos brincantes, pude ver a
verdadeira exaltação da fé e da vontade de ser gigante. Este ano, tivemos um
espetáculo absurdamente fantástico da Flor de Mandacaru, que nos trouxe um
efeito colateral que pretendo descrever nessas linhas: não, ela não é a mesma
de 2010.
Obviamente, o leitor mais atento
percebeu que houve um crescimento estrondoso das artes juninas no ano de 2014.
Absolutamente todas cresceram, apostando em novas formas de expressão e
investindo em talentos humanos e muito, mas muito planejamento. Inclusive, nossa
tradicional Arrasta-pé, cuja arte já rendeu um texto neste humilde blog, manteve
esse crescimento, embora exatamente dentro de suas possibilidades. Ressalto
hoje essa expansão da Flor de Mandacaru, que nem me atrevo a falar que se trata
de um simples “crescimento”. Foi algo ainda maior, capaz de incendiar o coração
do seu público e manter um espetáculo de qualidade devido a escolha de um tema
precioso. No garimpo dos temas, a Flor encontrou um diamante e provou para
todos que é capaz de se expressar como as gigantes quadrilhas do Ceará ou do
Pernambuco.
Quando criança, tínhamos uma quadrilha
bastante tradicional, intitulada de “Cangaceiros de Sebastião” – aprecio a
correção, caso esteja errado no nome. Naquela época, tínhamos uma Flor imatura,
tímida, mas algumas das figuras que até hoje estão a frente do grupo junino,
jáestavam lá: Raul Fernandes,
Lauender França, Gilliard, Railson, entre outros. Não contente em apenas ganhar
os quarenta mil corações da Vila Ildemar e adjacências, em 2010 vimos a Flor de
Mandacaru chegar a sua adolescência, e como todo jovem adolescente, inspirar-se
em alguém como noção de futuro. Tivemos aí a segunda quadrilha estilizada de
Açailândia, inspirada na memorável apresentação da Dona Matuta, “A Festa
do Pau da Bandeira”. Na verdade, ainda se tratava de uma cópia, embora os
artistas da Flor tivessem incluído características próprias ao enredo da Junina pernambucana, inclusive com um xaxado tímido, mas inesquecível. Em 2011, como num
exame vestibular, a Flor passou e adotou como tema “Flor de Mandacaru, a Rainha
dos sertões”, e logo a seguir, em 2012, tivemos coreografias melhores, mas um
enredo fraco “Notas de cores, ondas de emoção”, a começar por um tema
razoavelmente vago. Mais adiante, em 2013, a Flor apresentou um espetáculo mais
trabalhado, que foi “Encanto do bem, feitiço do mal”, que apesar de novamente
vago o tema, conseguiram uma apresentação excelente no que diz respeito à
escolha do repertório, do enredo e acima de tudo, dos figurinos. Aquela
ambiguidade entre o vermelho e o azul tornaram os figurinos inesquecíveis e
apontou que em 2014 viria algo excepcionalmente grandioso. Mas na época, eu
mesmo caro leitor, nem imaginava que tipo de grandiosidade eles prometiam.
A surpresa arrebatadora veio em 2014.
Flor de Mandacaru cresceu. Deixou a infância e a adolescência de lado e apostou
num espetáculo realmente grande e encantador. Em primeiro lugar, a escolha
precisa de um tema em que puderam destinar sua criatividade para compor. Sem
medo de jogar seus corações, os produtores artísticos apostaram na emoção, no
encanto e na certeza que o homem triste do sertão tem de dias melhores. Não
faltou matéria-prima: as doenças, a desesperança e a fé, a vida no duelo contra
a morte, todos esses elementos foram explorados e mostraram que há artistas
realmente eficientes para dar vida a um tema tão bem arquitetado. Que orgulho
para a mãe dessa ex-adolescente, a Dona Matuta. Os meninos da Flor traduziram todo
o contexto que defendiam nas roupas: terço em chapéu e no pescoço das damas e uma cruz na camisa
dos cavalheiros. Nas músicas: alusões ao falecido mestre Vitalino. Nas
coreografias: mãos em sinal de oração. No cenário: a ousadia de acender uma
vela para oração. Uma sintonia invejável
e que ficou transparente ao público.
Meus elogios a Flor hoje cessam por
aqui. Meus pobres dedos estão cansados de redigitar palavras como “grandiosa” e
“preciosa”. Obviamente tivemos alguns erros na condução, mas que não
comprometeram em nada a execução da Teimosia da Fé. O que é importante de ser
destinado ao público consumidor deste blog, já foi expressamente falado em
letras garrafais. A Flor cresceu, deixou a timidez de lado e investiu numa
apresentação de qualidade para incendiar a Açailândia Junina que ainda estava
se preparando para espetáculos dessa grandeza. Uma verdadeira guerreira. Mas
devemos ter cuidado: a inquietação é a marca da qualidade. Não basta tentar
repetir-se ano que vem, pois estaremos ainda mais exigentes. Mas para a Flor, a
receita me parece simples: apostar no coração. Essa inquietude, a Flor de
2010 já possuía. Então vamos confiar que o algo ainda mais “gigante pela própria
natureza” virá. Está aberta a corrida para a glória em 2015. E a você leitor,
um recado: como eles mesmos cantam, “Prepare o seu coração”...
Com os cumprimentos de,
K. Fera
Brevemente, atendendo solicitação expressa de um membro desse grupo junino em evidência, destaco os figurinos que brilharam na Açailândia Junina...

Nenhum comentário:
Postar um comentário