segunda-feira, 21 de julho de 2014

Da timidez da Flor ao gigantismo do Mandacaru

Imagem: Montagem de Danrley Fagundes

“Fé, antes de mais nada tem que acreditar”... O trecho que inicia essa postagem marca o início e o desfecho no Arraial de um dos grupos que mais brilhou este ano na Açailândia Junina. Flor de Mandacaru, ou somente Flor para os mais íntimos, apresentou um espetáculo incrível, acima de tudo mostrando que fé é um tema que eles facilmente dominam. Em cada rosto, em cada olhar, em cada gesto facial dos brincantes, pude ver a verdadeira exaltação da fé e da vontade de ser gigante. Este ano, tivemos um espetáculo absurdamente fantástico da Flor de Mandacaru, que nos trouxe um efeito colateral que pretendo descrever nessas linhas: não, ela não é a mesma de 2010.

Obviamente, o leitor mais atento percebeu que houve um crescimento estrondoso das artes juninas no ano de 2014. Absolutamente todas cresceram, apostando em novas formas de expressão e investindo em talentos humanos e muito, mas muito planejamento. Inclusive, nossa tradicional Arrasta-pé, cuja arte já rendeu um texto neste humilde blog, manteve esse crescimento, embora exatamente dentro de suas possibilidades. Ressalto hoje essa expansão da Flor de Mandacaru, que nem me atrevo a falar que se trata de um simples “crescimento”. Foi algo ainda maior, capaz de incendiar o coração do seu público e manter um espetáculo de qualidade devido a escolha de um tema precioso. No garimpo dos temas, a Flor encontrou um diamante e provou para todos que é capaz de se expressar como as gigantes quadrilhas do Ceará ou do Pernambuco.

Quando criança, tínhamos uma quadrilha bastante tradicional, intitulada de “Cangaceiros de Sebastião” – aprecio a correção, caso esteja errado no nome. Naquela época, tínhamos uma Flor imatura, tímida, mas algumas das figuras que até hoje estão a frente do grupo junino, jáestavam lá:  Raul Fernandes, Lauender França, Gilliard, Railson, entre outros. Não contente em apenas ganhar os quarenta mil corações da Vila Ildemar e adjacências, em 2010 vimos a Flor de Mandacaru chegar a sua adolescência, e como todo jovem adolescente, inspirar-se em alguém como noção de futuro. Tivemos aí a segunda quadrilha estilizada de Açailândia, inspirada na memorável apresentação da Dona Matuta, “A Festa do Pau da Bandeira”. Na verdade, ainda se tratava de uma cópia, embora os artistas da Flor tivessem incluído características próprias ao enredo da Junina pernambucana, inclusive com um xaxado tímido, mas inesquecível. Em 2011, como num exame vestibular, a Flor passou e adotou como tema “Flor de Mandacaru, a Rainha dos sertões”, e logo a seguir, em 2012, tivemos coreografias melhores, mas um enredo fraco “Notas de cores, ondas de emoção”, a começar por um tema razoavelmente vago. Mais adiante, em 2013, a Flor apresentou um espetáculo mais trabalhado, que foi “Encanto do bem, feitiço do mal”, que apesar de novamente vago o tema, conseguiram uma apresentação excelente no que diz respeito à escolha do repertório, do enredo e acima de tudo, dos figurinos. Aquela ambiguidade entre o vermelho e o azul tornaram os figurinos inesquecíveis e apontou que em 2014 viria algo excepcionalmente grandioso. Mas na época, eu mesmo caro leitor, nem imaginava que tipo de grandiosidade eles prometiam.

A surpresa arrebatadora veio em 2014. Flor de Mandacaru cresceu. Deixou a infância e a adolescência de lado e apostou num espetáculo realmente grande e encantador. Em primeiro lugar, a escolha precisa de um tema em que puderam destinar sua criatividade para compor. Sem medo de jogar seus corações, os produtores artísticos apostaram na emoção, no encanto e na certeza que o homem triste do sertão tem de dias melhores. Não faltou matéria-prima: as doenças, a desesperança e a fé, a vida no duelo contra a morte, todos esses elementos foram explorados e mostraram que há artistas realmente eficientes para dar vida a um tema tão bem arquitetado. Que orgulho para a mãe dessa ex-adolescente, a Dona Matuta. Os meninos da Flor traduziram todo o contexto que defendiam nas roupas: terço em chapéu e no pescoço das damas e uma cruz na camisa dos cavalheiros. Nas músicas: alusões ao falecido mestre Vitalino. Nas coreografias: mãos em sinal de oração. No cenário: a ousadia de acender uma vela para oração. Uma sintonia invejável e que ficou transparente ao público.

Meus elogios a Flor hoje cessam por aqui. Meus pobres dedos estão cansados de redigitar palavras como “grandiosa” e “preciosa”. Obviamente tivemos alguns erros na condução, mas que não comprometeram em nada a execução da Teimosia da Fé. O que é importante de ser destinado ao público consumidor deste blog, já foi expressamente falado em letras garrafais. A Flor cresceu, deixou a timidez de lado e investiu numa apresentação de qualidade para incendiar a Açailândia Junina que ainda estava se preparando para espetáculos dessa grandeza. Uma verdadeira guerreira. Mas devemos ter cuidado: a inquietação é a marca da qualidade. Não basta tentar repetir-se ano que vem, pois estaremos ainda mais exigentes. Mas para a Flor, a receita me parece simples: apostar no coração. Essa inquietude, a Flor de 2010 já possuía. Então vamos confiar que o algo ainda mais “gigante pela própria natureza” virá. Está aberta a corrida para a glória em 2015. E a você leitor, um recado: como eles mesmos cantam, “Prepare o seu coração”...


Com os cumprimentos de,
K. Fera

Brevemente, atendendo solicitação expressa de um membro desse grupo junino em evidência, destaco os figurinos que brilharam na Açailândia Junina...


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