Imagens: Montagem com fotos do namira.com
Ultrapassamos
a metade do mês de Julho, caros leitores. A incendiante chama do brilho junino
cada vez vai perecendo até apagar-se completamente e renascer belamente no ano
seguinte. Para quem sentiu saudades dos meus textos, meu mais longo silêncio aqui
terá fim. Este ano foi realmente espetacular! Tivemos um grande salto de
qualidade nas artes dos principais grupos juninos dessa nova Açailândia. Uma
atmosfera de fé, magia, encantos, romance, frio, calor e outras sensações que
mexeram com os cinco sentidos da plateia, puderam ser intensamente vividos no
arraial. O ano de 2014 jamais será esquecido por nós, quadrilheiros! Sem falar
que este ano tivemos K. Fera, que traduziu e tornou palpável por meio de seus
textos tamanha demonstração de sentimentos. Um marco, não?!
O
acender dessa chama ocorreu no Arraial Municipal. Com um brilho ímpar, as principais
quadrilhas desse circuito junino mostraram-se superiores inclusive à secretaria
de cultura, órgão que deveria incentivá-las a crescer. A Açailândia Junina não
nasceu em 2014, mas tomou nuances mais maduras nesse ano de Copa do Mundo. A
arte que vimos no Arraial Municipal é apenas expressão da sinceridade atrelada
à honestidade e à emoção. O carinho que esses jovens açailandenses têm pela
cultura é louvável. Ainda mais quando se sabe que, ao contrário de nossos “heróis”
jogadores, cujos pés são impulsionados pelo dinheiro, eles não querem nada em
troca a não ser despertar a emoção naquele que lhes assiste.
No
ano em que tivemos uma arte que extrapolou os limites da criatividade e as delicadas
limitações financeiras, eis uma grata surpresa com protagonismo da Matutos do
Rei: o humor retorna aos prólogos da arte junina. Peço que meus leitores
retornem às expressões juninas de uma década atrás. Tenho certeza que caso
tenha grande acervo mnemônico, virá à memória as quadrilhas repetitivas, por
vezes sem rumo, e como atração importante, uma situação de casamento bem previsível.
Não que essas expressões não pudessem ser aqui classificadas de algoritmos de
cultura, K. Fera engatinha na ambição de ser tornar um especialista capaz de
rotular. Mas eram enredos cíclicos, indecisos, que objetivava apenas arrancar o
riso do público, mesmo que recorresse a grosserias e xingamentos. Mas a
estilização salvou nossos olhos e ouvidos. Graças! Tivemos a necessidade da
piada clichê sufocada pela grandiosidade da criatividade, que rumou o
espetáculo junino à expressão de um tema. Marca aí o sepultamento da quadrilha
junina tradicional.
Porém,
ao mesmo tempo em que víamos a estilização mostrar-se cada vez mais elegante, íamos
perdendo aquilo que considero importante no espetáculo: a presença do humor.
Gosto das emoções, do sentimentalismo, da beleza, da qualidade dos figurinos e
diálogos, mas sempre considerei que havia sim como fazer humor. Afinal, o povo
nordestino tem uma graça natural e esse elemento faltava explorar nos textos
dos nossos quadrilheiros. Este ano, Matutos do Rei conseguiu surpreender devido
farejar essa falha com precisão. Eles reintroduziram o humor num espetáculo que
estava gradativamente preferindo o drama. Aliás, a apoteose da Matutos que
timidamente falei na primeira postagem foi maior do que vimos no Arraial: eles deram
leveza com um tema simples, mas arrojado.
Nos
trinta minutos de apresentação da quadrilha do Xico Cruz, é observável um texto
bastante despretensioso, fugindo da intenção de ser didático e de expor uma visão
de mundo. Temos apenas uma história de um pescador, com diálogos preocupados
com a beleza e a magia que se propuseram fazer. Entre sereias, pescadores, mães-d’água
e outros seres míticos, quatro seres encantados disputam a atenção e o amor de
um pescador saliente. Nesse momento, o humor atinge seu ápice com a inclusão de
três personagens travestidos de sereias num diálogo suficientemente ambíguo,
sem ser deselegante. É isso mesmo, caros leitores, creio que aqueles que
assistiram ao espetáculo conhecem muito bem os sentidos possibilitados pelas
falas das sereias travestidas, mas o que é de se admirar é a capacidade de se
introduzir esses elementos sem abertamente falar palavrões, grosserias e
xingamentos. Algo que só os inocentes e antológicos episódios do programa
mexicano Chaves conseguem fazer, embora não seja válida a comparação.
Jernilson,
Jailson e Eder, que são os nomes dos personagens que me referi no parágrafo anterior,
serão sempre lembrados com a trilha sonora de um funk muito conhecido à moda da
sanfona. São eles os protagonistas de uma importante ação que irá desenhar os
espetáculos mais adiante das quadrilhas da nossa terra. Um humor eficiente, que
embora se desgaste conforme o público aprecia novamente os espetáculos da
junina Matutos do Rei, merece longos elogios por se tratar de algo inteligentemente
construído, e contando com a inteligência do público para ser decodificado. Ah!
Não podemos esquecer do destaque do Xico Cruz nesse arraial da ilusão, que como
já disse aqui neste humilde blog, é um naturalmente saliente (que me desculpe o
eco!). Infelizmente, esse espetáculo tem poucas semanas de duração e fez muita
falta no Arraial do bom de bola. Saibamos, então, aproveitar bastante essa
prorrogação que nos resta. E rir quantas vezes for ainda possível das sereias que não
têm corpo e nem cor de sereia no mar da ilusão.
Com
os cumprimentos de,
Carlos
K. Fera
Melhores
tiradas do mar da ilusão
“Que bicha brega!”
“Não tem corpo e nem cor de
sereia”
“Comeu sardinha
estragada?”
“Eu mato a cobra e
mostro o pau!”
Ao
final do período junino (agora julino!), pretendo publicar uma espécie de
melhores do ano. Desafio grande, texto grandioso, aguardem!

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