quinta-feira, 17 de julho de 2014

E o humor venceu na Açailândia Junina

Imagens: Montagem com fotos do namira.com

Ultrapassamos a metade do mês de Julho, caros leitores. A incendiante chama do brilho junino cada vez vai perecendo até apagar-se completamente e renascer belamente no ano seguinte. Para quem sentiu saudades dos meus textos, meu mais longo silêncio aqui terá fim. Este ano foi realmente espetacular! Tivemos um grande salto de qualidade nas artes dos principais grupos juninos dessa nova Açailândia. Uma atmosfera de fé, magia, encantos, romance, frio, calor e outras sensações que mexeram com os cinco sentidos da plateia, puderam ser intensamente vividos no arraial. O ano de 2014 jamais será esquecido por nós, quadrilheiros! Sem falar que este ano tivemos K. Fera, que traduziu e tornou palpável por meio de seus textos tamanha demonstração de sentimentos. Um marco, não?!

O acender dessa chama ocorreu no Arraial Municipal. Com um brilho ímpar, as principais quadrilhas desse circuito junino mostraram-se superiores inclusive à secretaria de cultura, órgão que deveria incentivá-las a crescer. A Açailândia Junina não nasceu em 2014, mas tomou nuances mais maduras nesse ano de Copa do Mundo. A arte que vimos no Arraial Municipal é apenas expressão da sinceridade atrelada à honestidade e à emoção. O carinho que esses jovens açailandenses têm pela cultura é louvável. Ainda mais quando se sabe que, ao contrário de nossos “heróis” jogadores, cujos pés são impulsionados pelo dinheiro, eles não querem nada em troca a não ser despertar a emoção naquele que lhes assiste.

No ano em que tivemos uma arte que extrapolou os limites da criatividade e as delicadas limitações financeiras, eis uma grata surpresa com protagonismo da Matutos do Rei: o humor retorna aos prólogos da arte junina. Peço que meus leitores retornem às expressões juninas de uma década atrás. Tenho certeza que caso tenha grande acervo mnemônico, virá à memória as quadrilhas repetitivas, por vezes sem rumo, e como atração importante, uma situação de casamento bem previsível. Não que essas expressões não pudessem ser aqui classificadas de algoritmos de cultura, K. Fera engatinha na ambição de ser tornar um especialista capaz de rotular. Mas eram enredos cíclicos, indecisos, que objetivava apenas arrancar o riso do público, mesmo que recorresse a grosserias e xingamentos. Mas a estilização salvou nossos olhos e ouvidos. Graças! Tivemos a necessidade da piada clichê sufocada pela grandiosidade da criatividade, que rumou o espetáculo junino à expressão de um tema. Marca aí o sepultamento da quadrilha junina tradicional.

Porém, ao mesmo tempo em que víamos a estilização mostrar-se cada vez mais elegante, íamos perdendo aquilo que considero importante no espetáculo: a presença do humor. Gosto das emoções, do sentimentalismo, da beleza, da qualidade dos figurinos e diálogos, mas sempre considerei que havia sim como fazer humor. Afinal, o povo nordestino tem uma graça natural e esse elemento faltava explorar nos textos dos nossos quadrilheiros. Este ano, Matutos do Rei conseguiu surpreender devido farejar essa falha com precisão. Eles reintroduziram o humor num espetáculo que estava gradativamente preferindo o drama. Aliás, a apoteose da Matutos que timidamente falei na primeira postagem foi maior do que vimos no Arraial: eles deram leveza com um tema simples, mas arrojado.

Nos trinta minutos de apresentação da quadrilha do Xico Cruz, é observável um texto bastante despretensioso, fugindo da intenção de ser didático e de expor uma visão de mundo. Temos apenas uma história de um pescador, com diálogos preocupados com a beleza e a magia que se propuseram fazer. Entre sereias, pescadores, mães-d’água e outros seres míticos, quatro seres encantados disputam a atenção e o amor de um pescador saliente. Nesse momento, o humor atinge seu ápice com a inclusão de três personagens travestidos de sereias num diálogo suficientemente ambíguo, sem ser deselegante. É isso mesmo, caros leitores, creio que aqueles que assistiram ao espetáculo conhecem muito bem os sentidos possibilitados pelas falas das sereias travestidas, mas o que é de se admirar é a capacidade de se introduzir esses elementos sem abertamente falar palavrões, grosserias e xingamentos. Algo que só os inocentes e antológicos episódios do programa mexicano Chaves conseguem fazer, embora não seja válida a comparação.

Jernilson, Jailson e Eder, que são os nomes dos personagens que me referi no parágrafo anterior, serão sempre lembrados com a trilha sonora de um funk muito conhecido à moda da sanfona. São eles os protagonistas de uma importante ação que irá desenhar os espetáculos mais adiante das quadrilhas da nossa terra. Um humor eficiente, que embora se desgaste conforme o público aprecia novamente os espetáculos da junina Matutos do Rei, merece longos elogios por se tratar de algo inteligentemente construído, e contando com a inteligência do público para ser decodificado. Ah! Não podemos esquecer do destaque do Xico Cruz nesse arraial da ilusão, que como já disse aqui neste humilde blog, é um naturalmente saliente (que me desculpe o eco!). Infelizmente, esse espetáculo tem poucas semanas de duração e fez muita falta no Arraial do bom de bola. Saibamos, então, aproveitar bastante essa prorrogação que nos resta. E rir quantas vezes for ainda possível das sereias que não têm corpo e nem cor de sereia no mar da ilusão.

Com os cumprimentos de,

Carlos K. Fera


Melhores tiradas do mar da ilusão
“Que bicha brega!”
“Não tem corpo e nem cor de sereia”
“Comeu sardinha estragada?”
“Eu mato a cobra e mostro o pau!”

Ao final do período junino (agora julino!), pretendo publicar uma espécie de melhores do ano. Desafio grande, texto grandioso, aguardem!


 

Nenhum comentário:

Postar um comentário