quarta-feira, 8 de julho de 2015

Da suavidade das ondas do mar à agressividade do líquido sagrado

Imagem: Site AçaiVip

Depois de uma longa demora, eis que me faço novamente presente nesse sítio virtual pelo qual tenho extenso carinho. Mas novamente minha ausência tem explicação. Após uma série de atividades que a pessoa física por trás desse incógnito bogueiro teve de cumprir na sua vida chata e rotineira, não sobrou tempo para essa figura K. Fera se expressar. E há um pouco de culpa nas agendas das protagonistas juninas de Açailândia. Esse ano, para desespero de meu escasso tempo, elas estão maiores e cada vez encantando outras cidades satélites fora do eixo desse bogueiro. Resultado de trabalhos cada vez mais detalhistas e ousados.

Após um ano de extenso trabalho, digno das quadrilhas pernambucanas, a arte da Matutos do Rei deste ano, tinha um desafio muito alto, que era propor algo ainda superior ao tão delicioso mar da Ilusão que Xico Cruz e Tharles Ponciano construíram nos tablados de 2014. Por si só, isso representaria uma cruz muito pesada, pois o interessante espetáculo do ano passado, em que figurinos, coreografias, teatro, trilha sonora tiveram um sobressalto divino, dentro de um conceito estrutural detalhado, determinou um novo momento da história da Açailândia Junina, levando aqueles jovens artistas para concorrer com as devoradoras do Nordeste. A Imperadora não teve receio, confiando-se em seu espetáculo leve e gracioso, fez nosso Estado ter uma nova colocação na disputa, o que representa um marco na história do município e do Maranhão.

Com um espetáculo saboroso, envolvente e por vezes, apaixonante, Matutos viu no mês de Agosto do ano passado um desafio afável. O quê colocar em prática no ano seguinte? Tal interrogação, meus caros leitores, intrigou a minha jovem mente que respira cultura junina há pouco mais de uma década. E inacreditavelmente, a Imperadora decidiu ir pelo caminho da antítese: a agressividade do espetáculo. Sim! Se ano passado tínhamos a leveza transpirando até nos banners que ilustravam o espetáculo, seus artistas esse ano decidiram ser mais agressivos. Mostrar nos diálogos, figurinos, trilha sonora e coreografia um espetáculo mais viril e com certeza, tão sedutor como a leveza das águas azuis de um “mar salgado”.

Tal agressividade estava encharcada nos figurinos que este ano a cor escolhida foi a predominância marrom, no maior duelo em relação ao ano anterior da Imperadora. Nas coreografias, um forte teor teatral que se construiu belamente na figura dos noivos e dos vilões do prólogo, saltos quase ornamentais, tudo temperado com caras e bocas como nos antigos filmes mudos, além da padronização militar de, entre outros, barbas e gestos. Nos diálogos, uma linguagem mais carregada, falas ora mais cruas e fortes, em tons mais altos, além de um humor já patrimônio desse grupo junino. Enquanto isso, a trilha sonora embalava um resultado multiartístico excelente, com referências ousadas à cavalaria medieval, mitologia romana, regionalismo nordestino e uma dose de fantasia tão necessários ao folclore junino. Nesse último aspecto, houve uma escolha interessante, porém um pouco preocupante no que diz respeito à remasterizaçao das canções mais antigas.

O grupo junino apresentou um enredo bem amarrado, coerente e ora ou outra até instigante. Investindo no mistério de qual seria a receita de um tal líquido sagrado realizado pelo pai da noiva, o enredo levava o espectador uma conclusão mais que óbvia. Embora estrambótica fosse a obviedade, o momento da descoberta de qual era finalmente a bebida que tornava o padre tão alegre, a revelação foi um tanto desanimadora. Não conseguiria concluir se tal fato se deu pela forma como a revelação foi apontada ou mesmo se era necessário ao enredo deixar claro ao esperto espectador que a bebida, tão obscura aos personagens da trama, tratava-se da cachaça.

Bem verdade que as surpresas deste ano que marcaram a respeitável história da Imperadora foram os figurinos cada vez mais exuberantes, um enredo ainda mais varonil, uma trilha sonora eficiente, e claro uma noiva excelente que fugiu do estereótipo de virgem e santa, últimas características que o enredo inovador exigia. Não sou fã das comparações, mas esse texto reclama. No confronto da agressividade contra a suavidade, creio que a primeira tem mais chances de se impor. Mas no que diz respeito à cultura junina, essas forças se somam. Diria que Matutos do Rei conseguiu novamente se destacar nos arraiás que frequentei embora a arte desse ano não fique tão bem resguardada nas nossas memórias de espectador como o duelo azul-branco do ano passado. Do outro lado, o enredo mais adulto e agressor mostrou que esse grupo cultural tem ainda os pulmões – como eles mesmos provaram ao cantar à capela diversas vezes na apresentação – eficientes para vocalizar que são sim, um dos melhores grupos que temos na tão já ilimitada Açailândia Junina. Salve Imperadora!

Com os cumprimentos de,
Carlos K. Fera

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