Imagem: Site AçaiVip
Depois de uma
longa demora, eis que me faço novamente presente nesse sítio virtual pelo qual
tenho extenso carinho. Mas novamente minha ausência tem explicação. Após uma
série de atividades que a pessoa física por trás desse incógnito bogueiro teve
de cumprir na sua vida chata e rotineira, não sobrou tempo para essa figura K.
Fera se expressar. E há um pouco de culpa nas agendas das protagonistas juninas
de Açailândia. Esse ano, para desespero de meu escasso tempo, elas estão
maiores e cada vez encantando outras cidades satélites fora do eixo desse
bogueiro. Resultado de trabalhos cada vez mais detalhistas e ousados.
Após um ano de
extenso trabalho, digno das quadrilhas pernambucanas, a arte da Matutos do Rei
deste ano, tinha um desafio muito alto, que era propor algo ainda superior ao
tão delicioso mar da Ilusão que Xico Cruz e Tharles Ponciano construíram nos
tablados de 2014. Por si só, isso representaria uma cruz muito pesada, pois o
interessante espetáculo do ano passado, em que figurinos, coreografias, teatro,
trilha sonora tiveram um sobressalto divino, dentro de um conceito estrutural
detalhado, determinou um novo momento da história da Açailândia Junina, levando
aqueles jovens artistas para concorrer com as devoradoras do Nordeste. A
Imperadora não teve receio, confiando-se em seu espetáculo leve e gracioso, fez
nosso Estado ter uma nova colocação na disputa, o que representa um marco na
história do município e do Maranhão.
Com um
espetáculo saboroso, envolvente e por vezes, apaixonante, Matutos viu no mês de
Agosto do ano passado um desafio afável. O quê colocar em prática no ano
seguinte? Tal interrogação, meus caros leitores, intrigou a minha jovem mente
que respira cultura junina há pouco mais de uma década. E inacreditavelmente, a
Imperadora decidiu ir pelo caminho da antítese: a agressividade do espetáculo.
Sim! Se ano passado tínhamos a leveza transpirando até nos banners que ilustravam o espetáculo, seus artistas esse ano
decidiram ser mais agressivos. Mostrar nos diálogos, figurinos, trilha sonora e
coreografia um espetáculo mais viril e com certeza, tão sedutor como a leveza
das águas azuis de um “mar salgado”.
Tal
agressividade estava encharcada nos figurinos que este ano a cor escolhida foi
a predominância marrom, no maior duelo em relação ao ano anterior da
Imperadora. Nas coreografias, um forte teor teatral que se construiu belamente
na figura dos noivos e dos vilões do prólogo, saltos quase ornamentais, tudo
temperado com caras e bocas como nos antigos filmes mudos, além da padronização
militar de, entre outros, barbas e gestos. Nos diálogos, uma linguagem mais
carregada, falas ora mais cruas e fortes, em tons mais altos, além de um humor
já patrimônio desse grupo junino. Enquanto isso, a trilha sonora embalava um
resultado multiartístico excelente, com referências ousadas à cavalaria
medieval, mitologia romana, regionalismo nordestino e uma dose de fantasia tão
necessários ao folclore junino. Nesse último aspecto, houve uma escolha
interessante, porém um pouco preocupante no que diz respeito à remasterizaçao
das canções mais antigas.
O grupo junino
apresentou um enredo bem amarrado, coerente e ora ou outra até instigante.
Investindo no mistério de qual seria a receita de um tal líquido sagrado
realizado pelo pai da noiva, o enredo levava o espectador uma conclusão mais
que óbvia. Embora estrambótica fosse a obviedade, o momento da descoberta de
qual era finalmente a bebida que tornava o padre tão alegre, a revelação foi um
tanto desanimadora. Não conseguiria concluir se tal fato se deu pela forma como
a revelação foi apontada ou mesmo se era necessário ao enredo deixar claro ao
esperto espectador que a bebida, tão obscura aos personagens da trama, tratava-se
da cachaça.
Bem verdade que
as surpresas deste ano que marcaram a respeitável história da Imperadora foram
os figurinos cada vez mais exuberantes, um enredo ainda mais varonil, uma
trilha sonora eficiente, e claro uma noiva excelente que fugiu do estereótipo
de virgem e santa, últimas características que o enredo inovador exigia. Não
sou fã das comparações, mas esse texto reclama. No confronto da agressividade
contra a suavidade, creio que a primeira tem mais chances de se impor. Mas no
que diz respeito à cultura junina, essas forças se somam. Diria que Matutos do
Rei conseguiu novamente se destacar nos arraiás que frequentei embora a arte
desse ano não fique tão bem resguardada nas nossas memórias de espectador como
o duelo azul-branco do ano passado. Do outro lado, o enredo mais adulto e
agressor mostrou que esse grupo cultural tem ainda os pulmões – como eles
mesmos provaram ao cantar à capela diversas vezes na apresentação – eficientes
para vocalizar que são sim, um dos melhores grupos que temos na tão já
ilimitada Açailândia Junina. Salve Imperadora!
Com os
cumprimentos de,
Carlos K.
Fera

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