segunda-feira, 22 de junho de 2015

Koroné: O Sol, a Lua e suas distâncias exponenciais

Imagem: Angra Nascimento/Imirante Imperatriz

Um ano passou rapidamente. Já estou eu aqui, caros leitores, a falar de uma das gratas surpresas do Arraial de 2015. A Arraiá do Koroné, a junina que vem de Balsas, decidiu apostar num tema de uma simplicidade tamanha que chegou a intrigar a mente deste blogueiro feliz. Sabia que Junina não ia pretender temas raros e escassos. Sua aposta seria algo simplório, flertar com o sonho e a fantasia uma nova vez e garantir algo que só encontramos na radioatividade: enriquecer uma matéria e transformá-la em energia.
Para quem gosta de Astronomia, a distância entre a lua e o sol é de mais de cento e quarenta e nove milhões de quilômetros. E creio que o tema que a Koroné trouxe, versando sobre esses astros celestes, diz bem do fenômeno que ocorreu com ela entre o ano passado e o corrente. O grupo de Balsas explodiu, estourou, garantiu uma apresentação muitíssimo superior ao belo trabalho que colocaram em prática no ano passado. Inovando em vários aspectos, eu diria que o espetáculo “Do outro lado da vida” seria a Lua, tão próxima e confortável ao lado da Terra, enquanto “O sol e a lua” representaria bem a estrela maior, o Sol, que incendeia, ilumina, dá força e faz raiar o dia.
Vem clarear meu Arraial, se propunha Rhaoni Silva num dos mais belos e mais empolgantes momentos de sua carreira. Sabendo aproveitar as críticas que lhe são favoráveis, o marcador deixou certos tons que ano passado afirmei estar mais próximo de um narrador de rodeio, e investiu na sua incrível capacidade de encantar o espectador. Tanto que o marcador pôde colocar-se entre o duelo dos astros celestes, passeando entre eles com harmonia. E veio com uma arma poderosa e bastante oportuna para contar o romance entre o sol e a lua: contar essa história como se estivesse narrando uma história à filha. Tal arrojo permitiu imprimir um tom lúdico à apresentação e simultaneamente, aproximar-se do público, transportando o espectador a ouvinte íntimo da história. Em certo momento, a Koroné não mais esbanjava um espetáculo, e sim promovia-nos ao diálogo.
Vestir metade dos pares com a roupagem amarela em referência ao sol e os demais com figurinos que ilustravam a lua parecia uma proposta previsível. Porém, a Koroné deixava claro que queria promover o eclipse, o encontro entre o sol e a lua, esses astros tão bem distantes como mesmo disseram, tão diferentes, mas capazes de se misturarem para formar uma unidade. Nesse momento, a Koroné atinge seu auge! Não há nada mais belo que uma história de amor bem contada, e a metáfora que a balsense semeou no arraial realizando a interseção entre o sol e a lua conduziu seus brincantes a uma arte refinada. Embora o compromisso fosse a ficção, a Koroné prendeu seus pés no solo e disse que embora diferentes ou distantes, todos os seres que se amam devem ficar juntos.
Com uma trilha sonora mais um tanto rara, algumas mais bem escolhidas que outras, temperadas com canções compostas pelo grupo. A Arraiá este ano preferiu investir em algo que nos levou às expressões juninas pernambucanas: a música ao vivo. Foi um grande acerto e espero que vantagens competitivas como estas sejam repetidas pelos demais grupos juninos. Faz-nos entender que a Koroné tem um tanto a mais de arte a oferecer a seu fiel público.

Um alinhamento primoroso, figurinos exuberantes e uma característica só encontrada nela: Arraiá é uma quadrilha de nomes e valoriza quem está fazendo aquela engrenagem se movimentar. Dançarinos tão talentosos que não merecem estar no anonimato. Na voz de Rhaoni, pessoas tomavam forma e eram veiculados ao público. Àguida Santos, o noivo e a rainha tiveram seus nomes imortalizados num arraial que, com certeza, daqui a cem anos ainda terá fôlego para encantar novos amantes da cultura junina. Se cada pessoa que ali presenciava a força dessa apresentação representasse um corpo celeste, eu diria com toda a certeza que o universo gostou de ver esse eclipse junino do sol e da lua.

Com os parabéns celestiais de,
Carlos K. Fera.


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