quinta-feira, 18 de junho de 2015

Caipiras da Serra: uma mina de história e um cascalho de execução




Imagem: Na Mira

Devo mais que mil palavras a um dos grupos juninos mais interessantes da Açailândia Junina. Ano passado, à época do parto de K. Fera, quando a pessoa física por trás desse personagem hoje admirável não tinha ideia de onde meia dúzia de palavras críticas às apresentações das juninas iriam parar, não pude reparar com calma a arte que a Junina queria expor. Então, reservei-me à execução do silêncio, já que não possuía tantas referências quanto desejava para divulgar a arte dos Caipiras. Este ano, para recompensar, tive o zelo de assistir a cada detalhe dessa apresentação que apesar da dívida secular, outro motivo persistiu: acompanhar uma boa história sobre garimpeiros e pedras preciosas, matéria que muito ainda me afaga.

O tema do grupo muito me agradou a princípio. Embora longo e cansativo, o título do tema deixava bem evidente que falaria de uma preciosidade muito querida no Nordeste: a turmalina. Logo os neurônios deste blogueiro trabalharam arduamente. Coitados! Visualizaram múltiplas possibilidades de enredo. O velho sonho do garimpo, apesar de quase já esgotado nos arraiás de Pernambuco e Ceará, permite reviver uma emoção tipicamente nordestina: o fim do sofrimento pela riqueza

Apesar de uma ideia tão arriscada na cabeça, os artistas do Plano da Serra desenvolveram um enredo fabuloso. Sim, caro leitor, fabuloso! O texto da Caipiras estava primoroso e só quem não tem sensibilidade poética (pobres criaturas!) não poderia deixar de se sensibilizar com um enredo tão suculento. O amor da pedra mais preciosa da Paraíba com um garimpeiro foi um acerto tremendo, promovendo o bom gosto desse grupo junino ainda em desenvolvimento. Poetizar sobre o sentimento que um garimpeiro mantém pela pedra mais preciosa, esta personificada, do sertão da Paraíba, foi uma obra de arte digna de reverência. O texto puro da Junina irradia emoção a quem lê.

Pena que o quê sobrou de precisão na escolha da narrativa, faltou em outros aspectos da junina. Logo à primeira vista, se o espectador não tivesse feliz de ouvir um texto tão bem construído, poderia verificar que houve um descompasso entre algumas músicas e as coreografias propostas. Algo não funcionou ali. Ademais, um aspecto que a Imperadora e a Queridinha de Açailândia sabem executar com notório esmero, esgotou-se nos áudios dos doces caipiras: com exceção de uma ou duas músicas raras, a trilha sonora preferiu ir por um caminho confortável, apresentando canções já exaustas de serem veiculadas no arraial. Uma pena! E tal situação chegou a um nível crítico quando a apresentação da personagem Cleópatra trouxe uma música que mais parecia ser extraída de um jogo de vídeo-game antigo.  Algo que destoou do tipo de arte já refinada que o enredo defendia.

Soma-se a esses fatos um tanto maior de ânimo que seu marcador necessita para dar voz de comando aos componentes e suscitar emoções na plateia. Também é necessário encher os pulmões e dizer que tem orgulho de participar desse movimento junino. Seja em qualquer grupo junino que se encontrar, ter orgulho da sua Flor, dos seus Matutos, dos seus Caipiras ou de suas Maravilhas é o que impulsiona uma centena de brincantes a emocionar milhares de coadjuvantes espectadores. E isso, infelizmente faltou. É  preciso mostrar que cada componente se diverte ao realizar as coreografias, ao gritar para o público “eu sou da Caipiras” e incendiar a plateia com seus pulmões já estafados. A teatralidade nas mãos, um recurso que chamou a atenção durante as coreografias, embora bem elaborado, perdeu-se num grupo que parecia mais interessado em acertar as coreografias a entregar-se à poesia da sua trilha sonora. Essa entrega da qual falo é fundamental!

A caça à turmalina por um garimpeiro apaixonado revelou-se um dos melhores planos da noite de sábado. Pena que a história tão encantadora tenha se perdido em detalhes que poderiam sim ter sido sanados até à meia-noite de sexta-feira, possibilitando uma colocação mais à altura. E a destinação do meu primeiro texto integral aos doces Caipiras não sirva de tristeza. Que acreditem neste internauta ousado: o triste aqui fico eu. Deem, como meu presente, a mais preciosa turmalina a quem escreveu o texto fino da apresentação, afinal vestir a noiva de azul, deixando-a estonteante tal qual a pedra, personificá-la como uma das maiores ambições do garimpeiro e promover esse encontro em forma de casamento fabuloso merece sim ser premiado. Pena que toda a expressão por trás dessa narrativa arrojada não tenha acompanhado igualmente essa história comum, mas não menos cativante. Uma turmalina que ficou ofuscada em meio ao cascalho. Que tal livrá-la dessa condição e fazer de 2016 um ano mais rico? Tenho certeza de que os caipiras da Açailândia Junina saberão onde garimpar esse sonho.

Com os cumprimentos de,
Carlos K. Fera.

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