Imagem: Na Mira
Devo mais que mil palavras a um
dos grupos juninos mais interessantes da Açailândia Junina. Ano passado, à
época do parto de K. Fera, quando a pessoa física por trás desse personagem
hoje admirável não tinha ideia de onde meia dúzia de palavras críticas às apresentações
das juninas iriam parar, não pude reparar com calma a arte que a Junina queria
expor. Então, reservei-me à execução do silêncio, já que não possuía tantas
referências quanto desejava para divulgar a arte dos Caipiras. Este ano, para
recompensar, tive o zelo de assistir a cada detalhe dessa apresentação que
apesar da dívida secular, outro motivo persistiu: acompanhar uma boa história
sobre garimpeiros e pedras preciosas, matéria que muito ainda me afaga.
O tema do grupo muito me agradou
a princípio. Embora longo e cansativo, o título do tema deixava bem evidente
que falaria de uma preciosidade muito querida no Nordeste: a turmalina. Logo os
neurônios deste blogueiro trabalharam arduamente. Coitados! Visualizaram
múltiplas possibilidades de enredo. O velho sonho do garimpo, apesar de quase
já esgotado nos arraiás de Pernambuco e Ceará, permite reviver uma emoção
tipicamente nordestina: o fim do sofrimento pela riqueza
Apesar de uma ideia tão arriscada
na cabeça, os artistas do Plano da Serra desenvolveram um enredo fabuloso. Sim,
caro leitor, fabuloso! O texto da Caipiras estava primoroso e só quem não tem
sensibilidade poética (pobres criaturas!) não poderia deixar de se sensibilizar
com um enredo tão suculento. O amor da pedra mais preciosa da Paraíba com um
garimpeiro foi um acerto tremendo, promovendo o bom gosto desse grupo junino
ainda em
desenvolvimento. Poetizar sobre o sentimento que um
garimpeiro mantém pela pedra mais preciosa, esta personificada, do sertão da Paraíba, foi uma obra de arte digna de reverência. O texto puro da Junina
irradia emoção a quem lê.
Pena que o quê sobrou de precisão
na escolha da narrativa, faltou em outros aspectos da junina. Logo à primeira
vista, se o espectador não tivesse feliz de ouvir um texto tão bem construído,
poderia verificar que houve um descompasso entre algumas músicas e as
coreografias propostas. Algo não funcionou ali. Ademais, um aspecto que a
Imperadora e a Queridinha de Açailândia sabem executar com notório esmero,
esgotou-se nos áudios dos doces caipiras: com exceção de uma ou duas músicas
raras, a trilha sonora preferiu ir por um caminho confortável, apresentando
canções já exaustas de serem veiculadas no arraial. Uma pena! E tal situação
chegou a um nível crítico quando a apresentação da personagem Cleópatra trouxe
uma música que mais parecia ser extraída de um jogo de vídeo-game antigo. Algo que destoou do tipo de arte já refinada
que o enredo defendia.
Soma-se a esses fatos um tanto
maior de ânimo que seu marcador necessita para dar voz de comando aos
componentes e suscitar emoções na plateia. Também é necessário encher os
pulmões e dizer que tem orgulho de participar desse movimento junino. Seja em
qualquer grupo junino que se encontrar, ter orgulho da sua Flor, dos seus
Matutos, dos seus Caipiras ou de suas Maravilhas é o que impulsiona uma centena
de brincantes a emocionar milhares de coadjuvantes espectadores. E isso,
infelizmente faltou. É preciso mostrar
que cada componente se diverte ao realizar as coreografias, ao gritar para o
público “eu sou da Caipiras” e incendiar a plateia com seus pulmões já
estafados. A teatralidade nas mãos, um recurso que chamou a atenção durante as
coreografias, embora bem elaborado, perdeu-se num grupo que parecia mais
interessado em acertar as coreografias a entregar-se à poesia da sua trilha
sonora. Essa entrega da qual falo é fundamental!
A caça à
turmalina por um garimpeiro apaixonado revelou-se um dos melhores planos da
noite de sábado. Pena que a história tão encantadora tenha se perdido em
detalhes que poderiam sim ter sido sanados até à meia-noite de sexta-feira,
possibilitando uma colocação mais à altura. E a destinação do meu primeiro
texto integral aos doces Caipiras não sirva de tristeza. Que acreditem neste
internauta ousado: o triste aqui fico eu. Deem, como meu presente, a mais
preciosa turmalina a quem escreveu o texto fino da apresentação, afinal vestir
a noiva de azul, deixando-a estonteante tal qual a pedra, personificá-la como
uma das maiores ambições do garimpeiro e promover esse encontro em forma de
casamento fabuloso merece sim ser premiado. Pena que toda a expressão por trás
dessa narrativa arrojada não tenha acompanhado igualmente essa história comum,
mas não menos cativante. Uma turmalina que ficou ofuscada em meio ao cascalho.
Que tal livrá-la dessa condição e fazer de 2016 um ano mais rico? Tenho certeza
de que os caipiras da Açailândia Junina saberão onde garimpar esse sonho.
Com os
cumprimentos de,
Carlos K.
Fera.

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