terça-feira, 16 de junho de 2015

Flor de Mandacaru: o esmero do cacete e o requinte do Babaçu

Imagem: Armando Olegal


Um Arraiá da Mira para ficar na história. Essa é a impressão que tive. Um espetáculo dessa natureza, com a apresentação de mais de duas dezenas de grupos juninos não pode passar incólume na nossa história cultural cujo aspecto junino ainda persiste em engatinhar. Qualquer apresentação que se preze, oferece três óticas de apreciação: de quem dança ou atua, de quem prestigia e de quem julga. No alto da coadjuvância de quem simplesmente pagou meia entrada para ver mais de vinte lindos grupos mostrarem o resultado de um ano de talento concentrado, percebi eu que se não posso entender a ótica de quem dança, muito menos agora compreenderei o que há por trás de quem julga. Não tomo como ambição deixar de apreciar o espetáculo para julgá-lo. É uma tarefa muito hercúlea e não a quero. Porém, não deixa de ser curioso como o modo que um grupo traduz a emoção de quem curte ver não necessariamente influencia o resultado de quem avalia.

No sábado, o grupo Flor de Mandacaru conseguiu algo já além das previsões de qualquer blogueiro: superaram a Teimosia da Fé e construíram um espetáculo digno dos aplausos dos milhões de maranhenses que estão espalhados neste país. Vocalizaram em seus discursos uma personagem esquecida pelo próprio povo maranhense: a quebradeira de coco. Beber nessa fonte rara e escassa não é para qualquer camelo. Um enredo, que traduziu o maranhense em uma frase, suscitou os maiores sentimentos e emoções que até mesmo quem esqueceu suas origens teve de revivê-las. E as reviveu por meio dos personagens mais charmosos que vi este ano: Raimunda Babaçu e José Cacete.

O coração do público é tal qual um coco que precisa ser quebrado. Porém essa pancada de cacete de emoções que a queridinha de Açailândia deu no babaçu que reveste nossos corações foi mais que agressiva. Logo no início, apresentou a história de quatro quebradeiras que mais pareciam ter sido arrancadas diretamente de um documentário para a frente do público. Em seguida, abre-se o espetáculo com uma elegante coreografia das damas fazendo uma homenagem humana às personagens principais do enredo, lembrando-nos que na verdade não apenas era o aspecto do sofrimento dessas mulheres que estavam em destaque. Por fim, fechando os primeiros sete minutos mais bem elaborados da noite, os cavalheiros surgem como se tentassem sucumbir as quebradeiras de coco. O olhar de bicho de cada componente daquele grupo eriçou a epiderme de cada corpo humano que assistia orgulhosamente ao espetáculo. Ouso dizer que, ano a ano, o olhar penetrante da Flor vai se tornando um de seus maiores atrativos.

Mas o enredo de tão linear e apaixonante teve uma receita muito simples: contar a história de luta de apenas dois personagens, a quebradeira Raimunda e o padre Josino. Num dos maiores momentos do marcador Gustavo, ele vestiu-se de pura emoção e encantou como um padre real, seja no transmitir de suas emoções ou na aparência. Quem defendeu Raimunda surpreendeu. A consistência de sua apresentação pelo tom de realidade que Valéria imprimiu à personagem a promoveu para uma das mais agradáveis surpresas da noite. Sorte de Iolanda e companhia que mais uma vez acertaram com precisão na escolha de seus destacados.

Sem perder o brilho, o gingado e o fogo que já é característico dos trabalhos da Flor, lá foram eles mais uma vez inovar. A interatividade entre as quebradeiras e o público, aquelas presenteando estes com produtos extraídos do babaçu foi o que mais chamou a atenção de quem ali prestigiava. Foi a maneira com que a Queridinha nos alertou de que aquela é a nossa história e portanto, precisamos de alguma forma, estarmos incluídos nela. Chamaram-nos para dançar, interagir e saborear ao som de ”Coco Livre S/A”. A vontade de qualquer mortal era pular as cercas do tablado e participar daquela forte emoção que aquela altura já havia ganhado olhos e corações atentos.

Enfim, veio o segundo lugar. Algo que, junto ao calor do publico presente, pude perceber que não era o resultado esperado. Mas não há problemas. Cada espectador sagrou no seu arraial particular seu grupo junino campeão. Pessoas que têm em sua árvore genealógica, mães, avós e bisavós que muito lutaram para a construção dessa terra que dia 13 recebeu o mais intenso espetáculo de 2015. E os meses de Junho e Julho ainda não acabaram. A Flor ainda tem mais de cinco milhões de maranhenses para arrebatar. Que comecem, então, os jogos juninos!

Com os cumprimentos de,

K. Fera cujo sobrenome também é babaçu! 

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