Imagem: Armando Olegal
Um Arraiá da Mira para ficar na
história. Essa é a impressão que tive. Um espetáculo dessa natureza, com a
apresentação de mais de duas dezenas de grupos juninos não pode passar incólume
na nossa história cultural cujo aspecto junino ainda persiste em engatinhar. Qualquer
apresentação que se preze, oferece três óticas de apreciação: de quem dança ou
atua, de quem prestigia e de quem julga. No alto da coadjuvância de quem
simplesmente pagou meia entrada para ver mais de vinte lindos grupos
mostrarem o resultado de um ano de talento concentrado, percebi eu que se não posso
entender a ótica de quem dança, muito menos agora compreenderei o que há por
trás de quem julga. Não tomo como ambição deixar de apreciar o espetáculo para
julgá-lo. É uma tarefa muito hercúlea e não a quero. Porém, não deixa de ser
curioso como o modo que um grupo traduz a emoção de quem curte ver não
necessariamente influencia o resultado de quem avalia.
No sábado, o grupo Flor de
Mandacaru conseguiu algo já além das previsões de qualquer blogueiro: superaram
a Teimosia da Fé e construíram um espetáculo digno dos aplausos dos milhões de
maranhenses que estão espalhados neste país. Vocalizaram em seus discursos uma
personagem esquecida pelo próprio povo maranhense: a quebradeira de coco. Beber
nessa fonte rara e escassa não é para qualquer camelo. Um enredo, que traduziu
o maranhense em uma frase, suscitou os maiores sentimentos e emoções que até
mesmo quem esqueceu suas origens teve de revivê-las. E as reviveu por meio dos
personagens mais charmosos que vi este ano: Raimunda Babaçu e José Cacete.
O coração do público é tal qual
um coco que precisa ser quebrado. Porém essa pancada de cacete de emoções que a
queridinha de Açailândia deu no babaçu que reveste nossos corações foi mais que
agressiva. Logo no início, apresentou a história de quatro quebradeiras que
mais pareciam ter sido arrancadas diretamente de um documentário para a frente
do público. Em seguida, abre-se o espetáculo com uma elegante coreografia das
damas fazendo uma homenagem humana às personagens principais do enredo,
lembrando-nos que na verdade não apenas era o aspecto do sofrimento dessas
mulheres que estavam em
destaque. Por fim, fechando os primeiros sete minutos mais
bem elaborados da noite, os cavalheiros surgem como se tentassem sucumbir as
quebradeiras de coco. O olhar de bicho de cada componente daquele grupo eriçou
a epiderme de cada corpo humano que assistia orgulhosamente ao espetáculo. Ouso
dizer que, ano a ano, o olhar penetrante da Flor vai se tornando um de seus
maiores atrativos.
Mas o enredo de tão linear e
apaixonante teve uma receita muito simples: contar a história de luta de apenas
dois personagens, a quebradeira Raimunda e o padre Josino. Num dos maiores
momentos do marcador Gustavo, ele vestiu-se de pura emoção e encantou como um
padre real, seja no transmitir de suas emoções ou na aparência. Quem defendeu
Raimunda surpreendeu. A consistência de sua apresentação pelo tom de realidade
que Valéria imprimiu à personagem a promoveu para uma das mais agradáveis
surpresas da noite. Sorte de Iolanda e companhia que mais uma vez acertaram com
precisão na escolha de seus destacados.
Sem perder o brilho, o gingado e
o fogo que já é característico dos trabalhos da Flor, lá foram eles mais uma
vez inovar. A interatividade entre as quebradeiras e o público, aquelas presenteando
estes com produtos extraídos do babaçu foi o que mais chamou a atenção de quem
ali prestigiava. Foi a maneira com que a Queridinha nos alertou de que aquela é
a nossa história e portanto, precisamos de alguma forma, estarmos incluídos
nela. Chamaram-nos para dançar, interagir e saborear ao som de ”Coco Livre S/A”.
A vontade de qualquer mortal era pular as cercas do tablado e participar
daquela forte emoção que aquela altura já havia ganhado olhos e corações
atentos.
Enfim, veio o segundo lugar. Algo
que, junto ao calor do publico presente, pude perceber que não era o resultado
esperado. Mas não há problemas. Cada espectador sagrou no seu arraial
particular seu grupo junino campeão. Pessoas que têm em sua árvore genealógica,
mães, avós e bisavós que muito lutaram para a construção dessa terra que dia 13
recebeu o mais intenso espetáculo de 2015. E os meses de Junho e Julho ainda
não acabaram. A Flor ainda tem mais de cinco milhões de maranhenses para arrebatar.
Que comecem, então, os jogos juninos!
Com os cumprimentos de,
K. Fera cujo sobrenome também
é babaçu!

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