segunda-feira, 8 de junho de 2015

#Entre Temas e Dilemas


Um tema é uma bandeira. Algo que cada grupo junino leva até o tablado e finca sobre o solo. É toda a expressão da arte de um grupo cuidadosamente trabalhado em apenas uma frase. Há algum tempo, cada grupo lançou sua temática e este ano tivemos surpresas e novos encantos. Parece imaturo realizar uma análise daquilo que ainda não se efetivou. Por outro lado, os temas e as artes que as acompanham possibilitam entender como cada grupo capturará um aspecto da existência e levará isso até os exigentes jurados com roupagem junina, sim senhor! É nessa ideia tão desafiadora, que K. Fera se debruça agora.


Arraiá do Koroné – “O Sol e a lua”

O leitor mais atento observará o que falei a respeito da junina balsense em outro texto. Apesar de não possuir nenhum contato com forças ocultas deste universo, consegui acertar minha previsão: a Koroné não buscou seu tema em fontes raras e escassas. A temática, à primeira vista parece bastante simplória: um duelo entre a estrela e o satélite mais famosos aqui na Terra. A arte denuncia um duelo amoroso, em que seres diferentes complementarão suas diferenças no outro. Ouso dizer que a Koroné este ano tem uma história de amor baseada nas diferenças, na antítese da claridade e da escuridão, da ignorância e do conhecimento. Enriquecer essa proposta dentro do universo junino me parece perfeitamente possível. Sobretudo porque tematizar o amor, independente de que aspecto se deseja, cabe com perfeição dentro do recipiente das festas juninas.

Matutos do Rei – “A receita do líquido sagrado”
A arte da imperadora é memorável por diversos aspectos. Mas acredito que qualquer crítico não pode esquecer de uma característica desse grupo, que deve ser algo que impera nos trabalhos do Xico Cruz: não subestimar a inteligência do seu público. Ao mesmo tempo em que esconde que líquido sagrado é esse, como se o público não o soubesse, por trás do tema há um convite para descobrir as etapas sagradas para se chegar a um fluido endeusado. Essa temática verbalizada em formato de chamada é um marco! Permite ao público descobrir o que há por trás não somente de um elemento sagrado, mas redescobrir todo o universo do grupo Matutos do Rei.


Arrasta-pé – “Eis o melhor e o pior de mim” 
Dentre todas as temáticas aqui analisadas, a frase da Arrasta foi a que mais fomentou o fecundo intelecto deste blogueiro. O tema permite múltiplas possibilidades, e só quem encara o desafio dos ensaios pode saber com precisão de que os artistas desse grupo se propõem a falar. À primeira vista, parece que a quadrilha deseja realizar uma metalinguagem, falando de si mesma ou até do universo junino como um todo. Caso fosse essa a proposta, seria verdadeiramente um divisor de arraiás, embora trazer isso para agradar jurados e público seria mais trabalho para Hércules ou outro herói. Penso na possibilidade de o grupo optar pelo “melhor” e “pior” de um personagem, que de acordo o vídeo de divulgação do tema, representaria todo ser humano, tornando assim a proposta ainda mais significativa. Mas antes, que personagem tão interessante e dúbio poderia ser explorado?

  Flor de Mandacaru – “Meu sobrenome é babaçu”
A queridinha de Açailândia decidiu colocar o protagonista do seu enredo estampando o tema e ponto final. O babaçu, fruto tão bem conhecido sobretudo no oeste maranhense e no Piauí tem agora a chance de encantar Pernambuco. A face mais intrigante desse tema é a palavra “sobrenome”. Tal termo quer dizer origem, de onde vem. A Flor este ano tem uma tarefa mais que difícil. Poetizar sobre o sofrimento e a esperança das quebradeiras de coco do oeste maranhense sem apelar para um enredo didático, mas fantástico. Chega a ser interessante como os tentáculos dessa proposta atingiram os sobrenomes de todos os componentes nas redes sociais: agora Fran Babaçu, Bárbara Babaçu, Glauber Babaçu são personagens desse enredo que perpassam os limites do tablado. Genial!

Caipiras da Serra – “Estradas e caminhos nos sonhos de uma turmalina”

O tema árcade da grupo junino do Plano da Serra fez esse blogueiro rever em muitas imagens a beleza da pedra turmalina. Nossos Caipiras mineraram profundamente e alcançaram a beleza de uma pedra que diferentemente dos arrogantes ouro e diamante, cativa pela sua beleza simplória e tem a capacidade de reluzir diversas cores. Contar um enredo sob o ponto de vista de uma pedra literalmente escassa parece um caminho que propiciará a esse grupo junino chegar a uma arte rara e fina. Ou mesmo personificar essa pedra pode ser uma possibilidade também fantástica! Cabe a nossos sonhadores (e românticos) caipiras desenhar as estradas e conduzir os sonhos dessa turmalina. Com certeza, após o espetáculo, aprenderemos a escrever o nome dessa pedra com letra maiúscula. 

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