Um tema é uma bandeira. Algo que
cada grupo junino leva até o tablado e finca sobre o solo. É toda a expressão da
arte de um grupo cuidadosamente trabalhado em apenas uma frase. Há algum tempo,
cada grupo lançou sua temática e este ano tivemos surpresas e novos encantos.
Parece imaturo realizar uma análise daquilo que ainda não se efetivou. Por
outro lado, os temas e as artes que as acompanham possibilitam entender como
cada grupo capturará um aspecto da existência e levará isso até os exigentes
jurados com roupagem junina, sim senhor! É nessa ideia tão desafiadora, que K.
Fera se debruça agora.
Arraiá do Koroné – “O Sol e a
lua”
O leitor mais atento observará o
que falei a respeito da junina balsense em outro texto. Apesar de não possuir
nenhum contato com forças ocultas deste universo, consegui acertar minha
previsão: a Koroné não buscou seu tema em fontes raras e escassas. A temática,
à primeira vista parece bastante simplória: um duelo entre a estrela e o satélite
mais famosos aqui na Terra. A arte denuncia um duelo amoroso, em que seres
diferentes complementarão suas diferenças no outro. Ouso dizer que a Koroné
este ano tem uma história de amor baseada nas diferenças, na antítese da
claridade e da escuridão, da ignorância e do conhecimento. Enriquecer essa
proposta dentro do universo junino me parece perfeitamente possível. Sobretudo
porque tematizar o amor, independente de que aspecto se deseja, cabe com
perfeição dentro do recipiente das festas juninas.
Matutos do Rei – “A receita do
líquido sagrado”
A arte da imperadora é memorável
por diversos aspectos. Mas acredito que qualquer crítico não pode esquecer de
uma característica desse grupo, que deve ser algo que impera nos trabalhos do
Xico Cruz: não subestimar a inteligência do seu público. Ao mesmo tempo em que
esconde que líquido sagrado é esse, como se o público não o soubesse, por trás
do tema há um convite para descobrir as etapas sagradas para se chegar a um
fluido endeusado. Essa temática verbalizada em formato de chamada é um marco!
Permite ao público descobrir o que há por trás não somente de um elemento
sagrado, mas redescobrir todo o universo do grupo Matutos do Rei.
Arrasta-pé – “Eis o melhor e o pior de mim”
Dentre todas as temáticas aqui
analisadas, a frase da Arrasta foi a que mais fomentou o fecundo intelecto
deste blogueiro. O tema permite múltiplas possibilidades, e só quem encara o
desafio dos ensaios pode saber com precisão de que os artistas desse grupo se
propõem a falar. À primeira vista, parece que a quadrilha deseja realizar uma
metalinguagem, falando de si mesma ou até do universo junino como um todo. Caso
fosse essa a proposta, seria verdadeiramente um divisor de arraiás, embora
trazer isso para agradar jurados e público seria mais trabalho para Hércules ou
outro herói. Penso na possibilidade de o grupo optar pelo “melhor” e “pior” de
um personagem, que de acordo o vídeo de divulgação do tema, representaria todo
ser humano, tornando assim a proposta ainda mais significativa. Mas antes, que
personagem tão interessante e dúbio poderia ser explorado?
Flor de Mandacaru – “Meu sobrenome é babaçu”
A queridinha de Açailândia
decidiu colocar o protagonista do seu enredo estampando o tema e ponto final. O
babaçu, fruto tão bem conhecido sobretudo no oeste maranhense e no Piauí tem
agora a chance de encantar Pernambuco. A face mais intrigante desse tema é a
palavra “sobrenome”. Tal termo quer dizer origem, de onde vem. A Flor este ano
tem uma tarefa mais que difícil. Poetizar sobre o sofrimento e a esperança das
quebradeiras de coco do oeste maranhense sem apelar para um enredo didático,
mas fantástico. Chega a ser interessante como os tentáculos dessa proposta
atingiram os sobrenomes de todos os componentes nas redes sociais: agora Fran
Babaçu, Bárbara Babaçu, Glauber Babaçu são personagens desse enredo que
perpassam os limites do tablado. Genial!
Caipiras da Serra – “Estradas
e caminhos nos sonhos de uma turmalina”
O tema árcade da grupo junino do
Plano da Serra fez esse blogueiro rever em muitas imagens a beleza da pedra
turmalina. Nossos Caipiras mineraram profundamente e alcançaram a beleza de uma
pedra que diferentemente dos arrogantes ouro e diamante, cativa pela sua beleza
simplória e tem a capacidade de reluzir diversas cores. Contar um enredo sob o
ponto de vista de uma pedra literalmente escassa parece um caminho que
propiciará a esse grupo junino chegar a uma arte rara e fina. Ou mesmo
personificar essa pedra pode ser uma possibilidade também fantástica! Cabe a
nossos sonhadores (e românticos) caipiras desenhar as estradas e conduzir os
sonhos dessa turmalina. Com certeza, após o espetáculo, aprenderemos a escrever
o nome dessa pedra com letra maiúscula.

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