terça-feira, 10 de junho de 2014

Matutos do Rei e uma jangada em direção ao mar de Pernambuco

Imagens: Tharles Ponciano e Marcelo Cruz

 (para ser apreciado ouvindo Suíte dos pescadores de Dorival Caymmi)

Caro leitor, tivemos uma semana muito animada. O mais veloz entre os fãs de grupos juninos teve de se desdobrar em muitos para acompanhar o notável Arraial da Mira e o tradicional Arraial do Pequiá. Isso sem falar nos pequenos festejos juninos em escolas, igrejas e eventos particulares. Uma overdose para quem gosta de festejar o São João. E em meio a tantos acontecimentos na semana que marcou o aniversário da cidade de Açailândia, um deles teve notório destaque (a redundância aqui é proposital): a vitória de uma quadrilha da cidade do ferro para representar Pernambuco.

Decerto, muitos já contestaram o título baseando-se em argumentos que agora, podem receber o rótulo de “falidos”. Quem pagou os três dias no Arraial da Mirante (como eu, que aqui não aceito atribuir a minha atitude a horrenda palavra “ostentação”), logo no segundo dia já sabia que duas vagas do pódio estavam ocupadas: Flor de Mandacaru e Matutos do Rei. A primeira, munida de uma emoção fulminante e a segunda, com uma fórmula até então não experimentada em eventos juninos. O anúncio da vitória de Matutos do Rei no Arraial da Mira parecia certa, portanto desse ângulo, não foi emocionante – a não ser para os próprios membros. Eu, como jurado, não saberia ao certo determinar a vitória entre os dois primores de Açailândia; nessa horas, agradeço a possibilidade de possuir trinta reais e permanecer atento na plateia.

A maior crítica em relação à quadrilha junina Matutos do Rei se orientava na possibilidade de eles terem mutilado a estilo clichê-junino e investido apenas na encenação. Oras, bobagem! Vão tentar acusar uma quadrilha de reinventar a roda? Todos nós somos cientes de que desde antes de Matutos ter implantado esse novo modelo de apresentação, as chatas quadrilhas juninas investiam poderosamente em atuações, com casamentos de enredo comum. Sem o prólogo chulo do casamento, a plateia cobrava incessantemente, chegando a acusar que “quadrilha sem casamento não presta!”. Caros leitores, reafirmo que os tempos são outros. Desde a Semana Moderna de 1922, em que diversos artistas puderam expor obras que fugiam salientemente do senso comum, resistir às mudanças tornou-se o esporte favorito do brasileiro. E a crítica infundada está aí para tentar fundamentar esses desinformados. Que paradoxal! A plateia procura mudança e rejeita aquilo que arde de tão novo.

Matutos do Rei foi bastante sábia, e sua vitória demonstra que tem um grupo artístico atento às inovações. Conseguiram fugir tresloucadamente do comum, unindo teatro, poesia, fantasia, movimento e musicalidade numa divinização que a consagrou para o grande público. Com algumas melodias de seu repertório até então inéditas ao público, o grupo junino pintou e bordou num arraial que parecia ter sido produzido especialmente para eles, mostrando que a criatividade junina de Açailândia é muito maior que título, fazendo o troféu recebido ficar pequeno diante tamanha grandiosidade artística. Alguns dos críticos mais radicais, acusaram o grupo junino de fazer “macumba”, “candomblé”, no arraial. Na verdade, aí não reside uma crítica direcionada ao padrão artístico da Matutos do Rei, mas sim fortalece um preconceito contra as religiões , músicas, danças e  festas africanas que têm relação indireta (e direta também), veja que ironia, com aquelas de religiões milenares como o catolicismo. No entanto, caros leitores informados, não podemos julgar tais críticos como preguiçosos, afinal, tamanha produção de besteirol exige muito esforço!

Agora, a jangada da Matutos do Rei despede-se da região tocantina e invade mares já por eles conquistados: Pernambuco. Além de faturar um prêmio em dinheiro aquém da criatividade que seus membros desprenderam para produzir o biscoito fino visto na segunda noite do Arraial, o grupo junino ganhou a oportunidade de concorrer com as maiores devoradoras do Brasil no que diz respeito à produção artística. Não será uma tarefa fácil, pois temos em nosso país artistas excelentemente competentes na mesma proporção que temos políticos corruptos. Assim, o coração da cidade de ferro ganhará aspecto carnal e torcerá incessantemente pela vitória dos jovens que vislumbraram, um dia, vivenciarem esse momento merecido.  Culturalmente, é um orgulho que isso ocorra. E estaríamos torcendo com o mesmo clamor se fossem escolhidas Arrasta-pé, Flor de Mandacaru, Caipiras da Serra ou Cangaceiros de Açailândia, para nos representar. Rezemos para que esse mar da ilusão, abarrotado de tanta magia, promova um dilúvio que inunde os corações dos jurados pernambucanos. Confesso que a cada mínimo sinal de chuva, eu tremo!


Com as felicitações de
K. Fera

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