Imagens: Internet
O já tradicional Arraial da Mira aconteceu
sem grandes problemas, deixando muitos apaixonados pela tradição junina, grupo
no qual me incluo, ensandecidos. Foram três noites apreciando o trabalho de diversos
grupos juninos que resumiram seus esforços de dez meses (ou mais) em uma
apresentação de vinte e cinco minutos. O público disputou com louvor os
melhores lugares para visualizar cada tom, cada cor, cada sorriso e cada passo
das quadrilhas que brilhavam no tablado amarelo do Imperial Shopping. Umas
mais, outras menos, outras bem menos, o Arraial da Mira firmou-se (finalmente!)
como um evento familiar que reúne gerações em torno de algo até então
esquecido: o fazer junino.
Apesar de o evento ter como capital
Imperatriz, foi mesmo Açailândia que fez a festa. O fulgor das quadrilhas
juninas Arrasta-pé, Cangaceiros de Açailândia, Flor de Mandacaru, Matutos do
Rei, e outras, genuinamente açailandenses ofuscaram as apresentações que não
vieram na caravana da cidade do ferro. Porém, devemos admitir que duas
quadrilhas foras desse circuito também foram alvos de diversos comentários da
plateia que as acompanhava: negativamente e sim, positivamente!
Zé Comeu é uma quadrilha tradicional, apesar
do nome esdrúxulo e ousado que a apresenta. A quadrilha, até então era uma das
mais temidas pelos nossos heróis açailandenses, porém logo de início foi
possível notar que a quadrilha prometia muito... Prometeu tanto, mas não
cumpriu. Com um tema interessante, paradoxal, Zé Comeu prometia fazer nevar no
sertão, embalando os romances caipiras numa sensação térmica inédita. Chega de
caatinga e mandacarus secos! Era a hora de o sertanejo provar os casacos,
gorros, botas para o frio e construir o tradicional boneco de neve. O tema tão
interessante despertou no público uma sede de ser envolvido no frio que os
quadrilheiros prometiam transmitir. Mas oh! Que derrota! Assistir à
apresentação da Zé Comeu foi acreditar que a quadrilha traria a qualquer momento algo novo que nos
surpreenderia deixando-nos de queixos caídos. Mas não... Não aconteceu! Vimos
mais do mesmo. Além de sérios problemas de alinhamento, figurinos, músicas
escolhidas ao acaso e um prólogo teatral que por vezes cansou, a neve que Zé
Comeu compartilhou com seu público, no ápice de sua apresentação, revelava a
vergonha alheia. Nesse samba de crioulo doido que envolveu trens, malas,
caixotes e uma quadrilha que nitidamente não estava empolgada – como deveria
estar para o evento dessa grandeza – tivemos uma apresentação com uma proposta realmente genial
presa a uma quadrilha que não ousou inovar – nas mãos da Flor de Mandacaru,
eles incendiariam o público, com toda certeza. É, cara Zé Comeu, creio
que a única frieza que conseguiu arrancar foi a de seu público.
Enquanto a primeira quadrilha mostrou um
desempenho aquém do esperado, Arraiá do Koroné avançou com muita garra no
prêmio de melhor da noite, mas, quem viu, soube que ela esbarrou-se nos
aparatos tecnológicos. Com o tema metafísico “Do outro lado da vida”, em que
não precisou exatamente aquilo que iria dialogar com o seu público, a quadrilha
corria seríssimo risco de cair num samba de crioulo doido também. Felizmente, o
grupo junino tinha muitas armas a seu favor. A primeira delas era seu marcador:
o jovem tinha um carisma extraordinário. Um sorriso sincero e uma animação
colossal garantiriam facilmente uma medalha de melhor marcador caso o Arraiá da
Mira dispusesse dessa premiação. Embora seja obrigado a destacar que em certos
momentos sua marcação tinha semelhanças com a de um animador de rodeio. Mas tal
equívoco não comprometeu. O clímax de sua apresentação ocorreu num momento de
erro: sem som, a quadrilha dançou por mais nove ou dez minutos à capela,
cantando as músicas de seu repertório. Nunca vi nada parecido. Os componentes
agarraram-se fortemente a seus ideias de vitória e continuaram a cantar. A
plateia emocionou-se com tamanha demonstração de perseverança que o som, caros
leitores, não era mais importante. Porém, era preciso resgatar a dignidade (e
os pulmões também) dessa quadrilha. A organização deu uma nova oportunidade de
eles se apresentarem. E mesmo como novas falhas técnicas, os componentes
mostraram sua energia junina. A compostura da quadrilha ao não sucumbir diante
de uma falha técnica, não perdendo o ritmo, foi o grande acerto de sua
apresentação. Faturaram o quinto lugar, mas isso não é interessante saber; a
quadrilha, tão somente por seu ato, merecia ser coroada pelo seu incêndio de
determinação.
Entre a inexpressividade da Zé Comeu e o
entusiasmo da Arraiá do Koroné, levanto a bandeira desta última. Afinal, todo
quadrilheiro sabe a grandiosidade do seu trabalho não está na sofisticação de
suas vestes ou efeitos especiais. Mas sim, na honra de ver o olho de sua
plateia brilhar por vinte e cinco minutos ou até, uma vida inteira.
Brevemente destaco a quadrilha Arrasta-pé.
Com as saudações de
K. Fera

1 - Antes de mais nada, vou me apresentar. Chamo-me Lucas Alves, e além de outras coisas, sou o roteirista da Zé Comeu. Sou recém chegado no grupo, cujo contato se deu ano passado pela primeira vez. Desde então me apaixonei pelo movimento junino, aliás, encantei-me com a garra e luta deste grupo que luta há mais de vinte anos para manter viva a cultura local, esta desconhecida por mim, visto que sou um mineiro residente em Imperatriz.
ResponderExcluirEm princípio, parabenizo-o pela coragem de criticar tão “acidamente” as apresentações de nossos colegas de movimento. Como você mesmo disse, é preciso ser humilde e encarar com heroísmo as afrontas que você expõe. Sim! Afrontas! Mas como cada comunicador usa das palavras que bem entende, submeto-me ao ponto de respeitar sua opinião, mas não aceitá-la.
2 - Cabe a sua função apontar erros sim: como alinhamento, animação, roteiro, figurino, cenário, encenações. Já que se coloca na categoria de crítico “entendido”, considero justa sua forma de alertar. Só que não poderia deixar passar certas palavras infundadas vindas de você. Todo bom escritor deve falar com propriedade de causa antes de qualquer pronunciamento.
ResponderExcluirÉ por isto que estou aqui. Para me colocar, não como juiz sentenciador ou promotor de defesa, afinal, não o conheço. E por esta razão serei apenas testemunha de um fato... este que fiz parte e vivenciei a cada segundo, a cada madrugada, a cada ensaio, a cada choro e medo.
3 - No seu texto você diz “chover”, acho que se confundiu. É nevar! E agradeço quando diz ser nosso tema interessante e paradoxal. Era mesmo o que queríamos que pensasse, e o público também. O imaginário do público e as nossas concorrentes com certeza se perguntaram como este tema seria desenvolvido. Será que eles usariam botas, gorros, bonecos de neve, como você sugeriu? Não, muito óbvio! Será que faria frio? Será isto, será aquilo? Aí que estava a dinâmica da coisa. Incitar a pergunta e os porquês.
ResponderExcluir“Quando Nevou no Sertão” contou a história da jovem Amanda, que veio da Europa... continente onde nasceu a dança de quadrilha. Sua jornada inicia num casamento arranjado e termina noutro casamento, no encontro do amor verdadeiro. Usamos como pano de fundo as quatro estações, que na verdade não se referia à meteorologia, mas sim ao sentimento da garota: que fica seco, esfria, floresce e aquece – o seu coração sente isto. Daí a alusão! “Voilà”! Apensar de não precisar explicar aqui o sentido da nossa proposta (pois este didatismo cabe somente aos jurados, para bom entendimento e julgamento da apresentação) faço-a necessária para refutar suas colocações.
4 - O seu texto salientou “a derrota” da nossa apresentação. Qual derrota? A única que tivemos foi em perder o primeiro lugar, apenas. Não fomos derrotados frente ao público, como você disse. Se lembro-me bem, ouvi gritos, aplausos, pessoas de pé no ovacionando e cheias de entusiasmo com o andar dos acontecimentos.
ResponderExcluirSamba de crioulo doido? Você se refere aos vários adereços e objetos de cena que apresentamos? Se sim, errou mais uma vez! Foi um samba-canção, centrado em temáticas de amor, solidão e na chamada "dor-de-cotovelo". O navio se criou, o trem partiu, os caixotes foram malas, escadas, os balões que surgiram como mágica, as sombrinhas trouxeram o outono e o inverno... e claro, os flocos de neve que, mesmo sendo poucos (nosso sonho era fazer uma nevasca) fizeram valer a pena cada minuto dos vinte e cinco que propusemos a entoar nosso canto. Ah, e canções estas que, diferente do que disse: “terem sido escolhidas ao acaso” - passaram por uma longa pesquisa, sendo algumas compostas exclusivamente para o tema.
Em anos de trabalho com o teatro, sempre me deparei com críticas, são necessárias para o crescimento e aperfeiçoamento. O que não posso aceitar é a falta de respeito para com as produções locais. Você conhece a realidade das suas quadrilhas de Açailândia, que parabenizo aqui pelas incríveis apresentações, mas desconhece a nossa!
Vocês têm a sorte de ter o poder público como maior apoiador de seus espetáculos. Aqui, se você percebeu, fomos a única quadrilha a enfrentar o rojão e começar do zero nossa montagem. As outras colegas desistiram, porque aqui não há incentivo. Enfrentamos muitas barreiras sendo a maior dela a financeira. Meu grupo é guerreiro e não foi derrotado e nem provocou vergonha alheia. Vergonha eu tenho é de me pronunciar sem critérios e conhecimento de causa.
Lucas, obrigado por sua participação. Esse blog realmente tem como objeto discutir ideias acerca do fazer junino. E como tal, alegro-me em perceber que seu comentário tem as adjetivações "pertinente" e "respeitador", afinal, você possui total autonomia de concordar ou discordar, desde que para tanto não ofenda a ninguém. Por isso, quando elaborarei esta postagem fiz questão de recomendá-la à Zé Comeu. Como criticar se o principal envolvido não está ciente? Isso seria bastante incoerente da minha parte.
ResponderExcluirPeço que entenda minha posição de blogueiro que consiste em ovacionar ou criticar, quando necessário. A essa última atividade, sempre procuro utilizar de argumentos que exponham minha visão dos fatos - que provavelmente não seja a sua e dos demais componentes, e que pode gerar divergências.
Realmente, devo admitir que a palavra "chover" está substituindo indevidamente o verbo "nevar", porém, como você mesmo percebeu, tal confusão não trouxe prejuízo à compreensão do texto. Quanto ao coração da jovem protagonista do seu prólogo, creio que um tema de quadrilha não deve se prender de uma sensação um tanto psicológico, abstrato. A emoção junina é sentida por meio de cores e sons, e é ai que reside minha crítica. Não tive acesso ao contexto do prólogo, mas posso reafirmar minhas palavras no que diz respeito ao aspecto físico e material que vi.
Sei das dificuldades financeiras que a Zé Comeu tem e teve, e acredite: são as mesmas que os quadrilheiros de Açailândia vivem, embora o poder público realmente aqui e ali queiram pegar carona no carisma que tais grupos mantêm. Mas isso não significa um atributo para classificá-la, desclassificá-la ou ignorá-la em meu humilde blog. Em relação ao ano anterior, tivemos uma apresentação relativamente inferior. A expressão "músicas escolhidas ao acaso" não significa dizer que não houve pesquisa ou negligência da parte desse grupo junino; creio que a ordem das músicas, desde já, orienta esse argumento, por isso tive a petulância em emitir a "samba de crioulo doido". Então, elogio a garra e a competência que tiveram, querido Lucas; porém, não posso gastar meu teclado emitindo pseudoelogios sobre o aspecto material da sua quadrilha.
Ademais, afirmo com veemência o gosto que tive de ler suas palavras em meu engatinhante blog. Porém, creio que você não me deve explicações; o segundo lugar conota bem o que você afirmou.Quem sabe numa postagem em que eu conteste a escolha dos jurados, seu texto teria maior significação. Afinal, pelo que vejo, está preparado para julgar um grupo junino, pois reconhece que em todos a garra é o atributo fundamental para ganhar o prêmio, assim o rateio do prêmio entre todos os grupos juninos seria o mais conveniente. Ou não?
K. Fera, obrigado pela resposta. Não vim aqui pedir elogios seus. O que quero mesmo são suas críticas para que continue alertando. Queremos saber mesmo o que o público entendido diz. Tenha um bom dia.
ResponderExcluirze comeu foi quase perfeita so acho que pecou um pouco no repertorio da musica poderiam sem mais criativos no restante surpreendeu sim chamou atençao nao so dos jurados como foi ano passado mas sim do publico
ResponderExcluirQuer dizer, ArrastaZéSuvaco, pois tanto a música que era o chamado de nossa rainha GIL FERREIRAAAAA foi esse ano a da quadrilha Zé .
ResponderExcluirZé fez uma "apresentação" onde o que predominava era o modelo de palmas, identidade da quadrilha Arrasta Pé, e do começo ao fim coreografada por passos da digníssima RAINHA da SUVACO GIL FERREIRAAAAA .
Parabenizado aque a maior quadrilha da noite Matutos do Rei, ♡
deixando o meu ponto de vista do que presenciei, e sem esquecer do maravilhoso trabalho aqui feito por K. fera, Parabéns Grande . ;-)
Obs: Plágio ou não o que a Zé fez.
Isso cabe a dizer os que interpretarem o meu ponto de vista.
Cara Sandra,
ResponderExcluirOs pecados da Zé Comeu foram muitos, que não se cruzam com a colocação em que permaneceram. Todavia, há um destaque: o grito de alerta de seu marcador ao final da apresentação deu voz a algo que nós, amantes dessa festa, devemos nos preocupar. O fazer junino está ameaçado, seja pelo interesse das pessoas, seja por autoridades que não dão o apoio necessário para que o evento possa ocorrer. E nesse sentido, a atitude da Zé Comeu merecia pontos a mais, pois expôs um sofrimento que todos os grupos juninos guardam nos seus corações.
Itzmyfashion,
ResponderExcluirCaso compararmos Matutos do Rei e Zé Comeu, creio que esta última fica em larga desvantagem. Eu mesmo assumo que o segundo lugar deveria ser da jeitosa Flor de Mandacaru ou da digna Arraiá do Coroné, que mostrou a paixão pelo São João com suas cordas vocais ativas. Não acredito em plágio ainda. Basta lembrar que tudo o que temos é inspirado nos grandes festivais de Pernambuco. Ainda engatinhamos quando o assunto é quadrilha estilizada. Embora tenhamos bons exemplos de grupos que exploraram fortemente a criatividade a seu favor.