domingo, 6 de julho de 2014

Entre temas e dilemas

Montagem em homenagem aos componentes das juninas

(para ser devidamente apreciado por todas as juninas) 

Enquanto meus caros leitores assistiam avidamente o jogo da seleção brasileira no  último dia 4, este humilde blogueiro aproveitou sua folga de um turno de trabalho para fazer uma atividade que causa-lhes longos momentos de atenção e euforia: assistir quadrilhas juninas. O mais esperto leitor deve estar se perguntando em que arraial eu me encontrava ou se estava apenas delirando. Explica-se: embora a prefeitura da nossa cidade mais uma vez tenha se esquecido a essência junina deste nosso pedacinho de chão, desta vez respaldada sob a ilusão que o mês junino já se findou, recorri à maravilha da Internet para rever em vídeo o que presenciei no Arraial da Mira. Novamente vi as apresentações e tal ato inspirou meu coração a escrever este post. Então, qual a importância do tema para as quadrilhas juninas?



Não quero ser didático nem taxativo. Mas estou prestes a ser. Uma década atrás, falávamos apenas em tema da redação, tema do papel de parede do Windows e tema de personagens de novela. Para as quadrilhas açailandenses, ainda longe de serem estilizadas, não existia tema, apenas um exaustivo ritual de dança e casamento com muito palavrão para agradar à plateia. Enquanto Pernambuco e Ceará já trabalhavam com temas chamando a atenção de seu público, a Açailândia junina ignorava esse fator hoje determinante. Graças a um passo importante da Matutos do Rei, inspirado pela excelente junina Raio de Sol, em 2009 vimos aqui o vigor do espetáculo da quadrilha. Nesse período, Arrasta-pé reinava soberana. Porém, como resultado, sua expressão artística no ano seguinte já era considerada desatualizada.



Logo vimos essa prática correr como fogo nas demais juninas da nossa cidade. Todas procuraram se sofisticar para compor arte verdadeira no intuito de brotar nobreza nos arraiás de Açailândia. Pois bem, meus leitores, serei didático: o tema representa a dinâmica geral do espetáculo. Trata-se daquilo que vai nortear a execução de uma junina. O trabalho do coreógrafo, do produtor artístico, do dramaturgo, de quem seleciona as canções, de quem dança, de quem faz a arte gráfica e até mesmo de quem desenha o figurino se encontram finalmente no arranjo do tema. São funções distintas, desempenhadas por artistas diferentes dentro da junina, e que só mantém o equilíbrio graças à escolha precisa do tema. Não precisar com exatidão o objeto artístico foi o erro de algumas juninas que vi no Arraial da Mira. E essa terrível falha pode determinar um campeonato.



O universo junino é muito extenso. Uma quadrilha pode se inspirar de diferentes personagens, costumes, cenários e fazer alusão a outros elementos fora desse universo, desde que com tratamento digno de festa. Não pensem se tratar de uma tarefa fácil. Rhaoni Silva, Glauber Júnior e Tharles Ponciano já evidenciaram em seus discursos concedidos a este blog que além das dificuldades financeiras que muitas vezes freiam a criatividade, fazer com que um grupo junino (que pode chegar a 100 cabeças) pense de modo harmônico para que não haja conflitos de interesses, é tarefa militar. Felizmente, o que vimos em 2014 são erros menores que o ano passado.



Tomo como exemplo, a arte da Flor de Mandacaru. Com um tema exemplarmente preciso, o olhar mais atento consegue perceber a referência do tema até nas roupas. Decerto, o preto não é uma cor lá desejada para colorir o Arraial. Mas o tema, que também trabalha com a morte exigiu essa ousadia. Do outro lado, a Matutos do Rei apresentou um tema bastante subjetivo e colocou no arraial um espetáculo espertamente calculado e vivo. As cores que referenciavam o mar, bem como o universo do pescador que une misticismo, religiões e uma certa dose de malandragem, e o flerte com o Folclore Popular tão esquecido no Brasil foram abordados de forma apoteótica no arraial, motivando este blogueiro a se pronunciar pela primeira vez. Nada foi esquecido.



A queridinha de Balsas, Arraiá no Koroné apostou num tema, como já pronunciado aqui, bastante metafísico. Eu mesmo não confiaria em colocar em prática um tema não tão indeterminado. Surpreendentemente, conseguiram imprimir dignidade ao que se propunham fazer. A Arraiá promoveu algo bastante difícil que é trazer elementos fora do contexto junino e dar-lhes uma roupagem colorida e condizente. Falar sobre a morte nesse período de alegria exige esforço sobre-humano, vide Flor de Mandacaru, porém os meninos de Balsas acertaram ao “puxar” essa matéria bastante sobrenatural para o universo junino. Tiveram êxito, ao final. Voltando à cena de Açailândia, Arrasta-pé trouxe um tema extremamente impreciso. Ora, “encantos juninos” é o todo! Não há como falar do todo em trinta minutos. Além de uma dramaturgia meio cansativa, lenta, os acertos da mais tradicional de Açailândia resumiram-se em seus fiéis componentes, aprazíveis figurinos e um marcador inteligente, que se mostraram bem superiores à proposta que a quadrilha tentava levar. Claro que se trata de avanço em relação aos anos anteriores dessa junina. Mas o “encantos juninos”, tão bem indeterminado não marcou a estética capaz de imprimir a marca no arraial. E quase nenhum encanto.



Zé Comeu já teve um capítulo à parte neste blog em que sua neve prometida caiu, mas arrancou apenas frieza de parte de seu público. Promoteram um espetáculo, nos trouxeram uma festa de formatura que, parênteses, foi admirada em Pedreiras. Caipiras da Serra mostrou um espetáculo bem amarrado sobre Romeu e Julieta no sertão. As referências a Shakespeare foram inteligentemente traduzidas para o contexto de Maria Bonita e Lampião. Ficaram devendo em outros aspectos que, brevemente, devo aqui expor.



Então, após doses de didatismo, pude neste espaço expor algo que já perguntaram na página do facebook do K. Fera. Devo advertir que trabalhar a estética do espetáculo sob o comando de um tema, apesar de parecer mais simples, trata-se de tarefa para Hércules. Embora tenha visto erros infantis em 2014, também presenciei acertos valiosos. Precisamos agora que o apogeu ocorra nas mentes daqueles que trabalham durante o ano em estruturar um espetáculo do tipo, porque acredito que, brevemente, não teremos de viajar para Pernambuco para vislumbrar qualidade. Açailândia será a sede.



Com as dicas de

K. Fera
 


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