Montagem em homenagem aos componentes das juninas
(para ser devidamente apreciado por todas as juninas)
Enquanto meus caros leitores assistiam
avidamente o jogo da seleção brasileira no último dia 4, este humilde blogueiro
aproveitou sua folga de um turno de trabalho para fazer uma atividade que causa-lhes longos momentos de atenção e euforia: assistir quadrilhas juninas. O
mais esperto leitor deve estar se perguntando em que arraial eu me encontrava
ou se estava apenas delirando. Explica-se: embora a prefeitura da nossa cidade
mais uma vez tenha se esquecido a essência junina deste nosso pedacinho de
chão, desta vez respaldada sob a ilusão que o mês junino já se findou, recorri
à maravilha da Internet para rever em vídeo o que presenciei no Arraial da
Mira. Novamente vi as apresentações e tal ato inspirou meu coração a escrever
este post. Então, qual a importância do tema para as quadrilhas juninas?
Não quero ser didático nem taxativo. Mas
estou prestes a ser. Uma década atrás, falávamos apenas em tema da redação,
tema do papel de parede do Windows e tema de personagens de novela. Para as
quadrilhas açailandenses, ainda longe de serem estilizadas, não existia tema, apenas
um exaustivo ritual de dança e casamento com muito palavrão para agradar à plateia.
Enquanto Pernambuco e Ceará já trabalhavam com temas chamando a atenção de seu
público, a Açailândia junina ignorava esse fator hoje determinante. Graças a um
passo importante da Matutos do Rei, inspirado pela excelente junina Raio de
Sol, em 2009 vimos aqui o vigor do espetáculo da quadrilha. Nesse período,
Arrasta-pé reinava soberana. Porém, como resultado, sua expressão artística no
ano seguinte já era considerada desatualizada.
Logo vimos essa prática correr como fogo
nas demais juninas da nossa cidade. Todas procuraram se sofisticar para compor
arte verdadeira no intuito de brotar nobreza nos arraiás de Açailândia. Pois
bem, meus leitores, serei didático: o tema representa a dinâmica geral do
espetáculo. Trata-se daquilo que vai nortear a execução de uma junina. O trabalho
do coreógrafo, do produtor artístico, do dramaturgo, de quem seleciona as canções,
de quem dança, de quem faz a arte gráfica e até mesmo de quem desenha o
figurino se encontram finalmente no arranjo do tema. São funções distintas,
desempenhadas por artistas diferentes dentro da junina, e que só mantém o
equilíbrio graças à escolha precisa
do tema. Não precisar com exatidão o objeto artístico foi o erro de algumas
juninas que vi no Arraial da Mira. E essa terrível falha pode determinar um
campeonato.
O universo junino é muito extenso. Uma
quadrilha pode se inspirar de diferentes personagens, costumes, cenários e
fazer alusão a outros elementos fora desse universo, desde que com tratamento
digno de festa. Não pensem se tratar de uma tarefa fácil. Rhaoni Silva,
Glauber Júnior e Tharles Ponciano já evidenciaram em seus discursos concedidos
a este blog que além das dificuldades financeiras que muitas vezes freiam a
criatividade, fazer com que um grupo junino (que pode chegar a 100 cabeças) pense
de modo harmônico para que não haja conflitos de interesses, é tarefa militar. Felizmente,
o que vimos em 2014 são erros menores que o ano passado.
Tomo como exemplo, a arte da Flor de
Mandacaru. Com um tema exemplarmente preciso, o olhar mais atento consegue
perceber a referência do tema até nas roupas. Decerto, o preto não é uma cor lá
desejada para colorir o Arraial. Mas o tema, que também trabalha com a morte
exigiu essa ousadia. Do outro lado, a Matutos do Rei apresentou um tema
bastante subjetivo e colocou no arraial um espetáculo espertamente calculado e
vivo. As cores que referenciavam o mar, bem como o universo do pescador que une
misticismo, religiões e uma certa dose de malandragem, e o flerte com o Folclore
Popular tão esquecido no Brasil foram abordados de forma apoteótica no arraial, motivando este blogueiro a se pronunciar pela primeira vez.
Nada foi esquecido.
A queridinha de Balsas, Arraiá no Koroné
apostou num tema, como já pronunciado aqui, bastante metafísico. Eu mesmo não
confiaria em colocar em prática um tema não tão indeterminado. Surpreendentemente,
conseguiram imprimir dignidade ao que se propunham fazer. A Arraiá promoveu algo
bastante difícil que é trazer elementos fora do contexto junino e dar-lhes uma
roupagem colorida e condizente. Falar sobre a morte nesse período de alegria exige
esforço sobre-humano, vide Flor de Mandacaru, porém os meninos de Balsas
acertaram ao “puxar” essa matéria bastante sobrenatural para o universo junino.
Tiveram êxito, ao final. Voltando à cena de Açailândia, Arrasta-pé trouxe um
tema extremamente impreciso. Ora, “encantos juninos” é o todo! Não há como
falar do todo em trinta minutos. Além de uma dramaturgia meio cansativa, lenta,
os acertos da mais tradicional de Açailândia resumiram-se em seus fiéis componentes, aprazíveis figurinos e um marcador inteligente, que se mostraram bem superiores à proposta que a quadrilha
tentava levar. Claro que se trata de avanço em relação aos anos anteriores
dessa junina. Mas o “encantos juninos”, tão bem indeterminado não marcou a
estética capaz de imprimir a marca no arraial. E quase nenhum encanto.
Zé Comeu já teve um capítulo à parte
neste blog em que sua neve prometida caiu, mas arrancou apenas frieza de parte
de seu público. Promoteram um espetáculo, nos trouxeram uma festa de formatura
que, parênteses, foi admirada em Pedreiras. Caipiras da Serra mostrou um
espetáculo bem amarrado sobre Romeu e Julieta no sertão. As referências a Shakespeare foram inteligentemente
traduzidas para o contexto de Maria Bonita e Lampião. Ficaram devendo em outros
aspectos que, brevemente, devo aqui expor.
Então, após doses de didatismo, pude
neste espaço expor algo que já perguntaram na página do facebook do K. Fera.
Devo advertir que trabalhar a estética do espetáculo sob o comando de um tema,
apesar de parecer mais simples, trata-se de tarefa para Hércules. Embora tenha
visto erros infantis em 2014, também presenciei acertos valiosos. Precisamos agora
que o apogeu ocorra nas mentes daqueles que trabalham durante o ano em estruturar
um espetáculo do tipo, porque acredito que, brevemente, não teremos de viajar
para Pernambuco para vislumbrar qualidade. Açailândia será a sede.
Com
as dicas de
K.
Fera

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